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terça-feira, junho 19, 2007

Winter is Coming



"Dark words come in dark wings."




AVISO: Esse texto contém spoilers. Se você pretende um dia ler a série A Song of Ice and Fire, de George RR Martin, e não gosta de spoilers, não leia.

Cabelos negros como a noite sem luar eram levados aleatoriamente pelo vento frio do Norte, juntamente com lágrimas furtivas. Kateryn tentou sufocá-las, mas falhou miseravelmente. Passara a noite acordada, arrumando os pertences do seu pai, e estava cansada demais agora para se policiar. Não era mais uma garotinha, e tinha que ser forte. Prometera isso, e haveria de cumprir.

Palavras sombrias chegam em asas negras, costuma-se dizer. Daquela vez não havia sido um corvo o mensageiro, mas sim o seu pai, cavaleiro jurado ao Lorde Cerwyn. Sir Willam Goodhunt, homem simples, guerreiro disciplinado e um tanto rude, mas principalmente, seu pai. Fora ele quem chegara abatido da viagem e deu a notícia de que Lorde Stark havia falecido. Executado. Acusado de traição ao rei, decapitado em praça pública.

E então houve a reunião. O melhor homem do Norte, dissera Lorde Cerwyn. E Kateryn não precisava conhecê-lo para saber disso. A reputação de um homem de verdade o precedia, e não era diferente com Eddard Stark. Bondade, sabedoria, justiça e quase todos os adjetivos eram ditos pela maioria das pessoas quando falavam do Lorde de Winterfeel. E tudo isso foi relembrado por lorde Medger em seu discurso.

E além de morto injustamente, suas duas filhas eram mantidas cativas nas terras do sul. Sequer o direito de enterrá-lo junto a seus ancestrais havia sido dado à família. E Robb Stark, herdeiro da casa, chamava seus homens à guerra. E isso incluía a casa Cerwyn

Aquelas palavras caíram pesadas como rochas rolando de uma torre. Mesmo depois da noite de trabalho, e mesmo naquele momento, vendo os homens que mais amava na vida partirem para um destino incerto, o discurso do lorde ressoava na sua mente. Guerra. Seu pai, Medger Cerwyn, a quem tinha como um pai, e Cley Cerwyn cavalgavam para uma guerra que não era sequer deles. Era uma guerra de reis. O Rei do Norte, Robb Stark, garoto mais novo que a própria Kateryn, e Jeoffrey Baratheon, um infante feito rei pelas tramas do destino.

“Prometa que vai estar aqui”, dissera Cley. “Prometa que vai estar aqui quando eu voltar.”

Queria ir com ele, queria estar ao lado dele. Morreria protegendo-o, se preciso fosse. Mas as lágrimas não a deixaram dizer. O povo do Norte não era muito bom com palavras, e por mais que ela quisesse, não conseguiu. Amava-o, tinha certeza disso. Mas o máximo que conseguiu dizer foi:

“Eu prometo”.

quarta-feira, junho 13, 2007

Damien


"- Nobody is really ready.
- For knighthood?
- For death."


Um instante. Tudo o que ele precisava era de apenas um instante - o tempo de um simples piscar de olhos era mais que suficiente para levar um cavaleiro ao chão. Não tinha nada contra duelos - apesar de serem um tanto burocráticos e fantasiosos demais - mas o campo de batalha era diferente. Justa alguma poderia se comparar à batalha: suja, lamacenta e escorregadia, onde os homens lutam por suas vidas. Em uma batalha, você mata, pisoteia, esmurra e até tortura. Com sorte você aprende a gostar disso.

Damien escutava os tambores dos inimigos, soando ao longe, mas aqueles bastardos não o incomodavam. Era um mercenário, sem fé, e que adorava matar - não importava o lado dos soldados, ou a quem servia. Era vassalo apenas de sua espada. Carregava a bandeira de quem pagasse melhor - desde que pudesse matar. Prisioneiros rendiam resgates, e por isso deixava os nobres emplumados para quem os desejassem. O dinheiro só era útil enquanto pudesse pagar uma boa armadura e uma espada melhor ainda. Sorriu quando o primeiro destacamento veio na direção de atacá-los.

Fez um gesto para que seus homens esperassem. Que a carga seguisse em sua investida desvairada, desfazendo a linha inimiga. Que eles os enfraquecessem com as lanças, e que eles morressem primeiro. Logo os primeiros gritos soaram, acompanhados pelo clangor de espadas. Damien não deixou de sorrir quando viu um cavaleiro ser atingido por uma espada, e tombar para a esquerda do cavalo, preso pelo pé no estribo, enquanto o animal andava erraticamente. Aquele era o destino dos heróis do rei: uma morte inócua, a profanação do seu corpo, e acima de tudo, seus bens pilhados.

Levantou-se em seguida, guiando seus homens para a esquerda. A infantaria já estava engajada em combate, e aquele pequeno grupo surpreenderia pelo flanco. Sangue iria encharcar aquele gramado, e apenas os céus presenciariam os corpos inchando sendo comido por abutres. E mais uma vez, ele não estaria entre eles.

Damien desembanhou a espada e sem cerimônia cravou-a num jovem que não parecia ter mais de 18 anos. A morte de um camponês não tinha honra ou glória - embora ele não desse importância a nenhuma das duas - e, acima de tudo, era apática. Raramente imploravam misericórdia, tão paralisados de medo que estão. Preferia ver o desespero nos olhos de um cavaleiro arrogante e ouvir seus últimos impropérios.

Sem o elmo, pôde ver quando uma lâmina brilhou à luz do sol da manhã, e virou o corpo a tempo de bloquear o ataque com facilidade. Aproveitou a força do golpe do inimigo e girou um pouco a espada, desarmando-o. Por um instante, o soldado ficou estarrecido diante da habilidade do mercenário. Só por um instante. Tempo mais que suficiente para que a espada de aço reluzente trespassasse sua carne, e o fizesse de cair de joelhos. Os olhos arregalados, a boca ensangüentada, os braços largados ao lado do corpo. Tentava balbuciar alguma coisa. Uma prece?

Tsk. Como se Deus fosse escutar. Bem? Mal? Todos os exércitos acreditam ter Deus ao seu lado. Todos dizem que seus inimigos são enviados do demônio, afirmam que queimarão no inferno. Damien não se importava com sua alma - e, se ela existisse mesmo, ele não poderia comprovar. Se pudesse, a trocaria por uma espada. Também não se incomodava em pagar a um padre para rendê-la. Se todos aqueles guerreiros realmente queimassem no inferno, ele deveria ser um bom lugar, afinal.

Bla, bla, bla, estamos com um concurso, bla bla bla, vejam os detalhes aqui.

terça-feira, maio 29, 2007

Bom dia

Para Gustavo





Criatividade é bicho ruim, nunca aparece quando você chama.






Seis da manhã. O sol iluminava timidamente o quarto através das frestas da janela fechada, dando a ele um tom levemente alaranjado. O cômodo estava frio, foi a primeira coisa que ela notou, ainda num estado entre o sono e a vigília.

O frio a fez estranhar o ambiente, antes de abrir os olhos, antes mesmo de pensar em algo. Seu quarto não era frio, normalmente.

Ligeiramente mais desperta, considerou abrir os olhos. Antes que o fizesse, numa fração de segundo, a memória da noite anterior veio à sua mente. Mexeu-se de leve e sentiu um outro corpo na cama, deitado ao seu lado. Sorriu.

Só então abriu os olhos, vagarosamente, e encarou a luminosidade pálida do quarto. Uma luminosidade acolhedora, delicada. Até mesmo morna, aconchegante, apesar da temperatura.

Encolheu-se um pouco mais na coberta e virou-se devagar, com cuidado para não acordar o rapaz ao seu lado. Encarou-o por longos minutos, observando cada detalhe do seu rosto. Rapaz... Ou seria um homem? Evidente que sua postura era de homem, é um adulto, são ambos adultos. Mas esse rosto... esse rosto parece até mais jovem do que a verdadeira idade dele. Sorriu ao pensar nisso, nessa dicotomia.

Notou que ele estava descoberto, com as costas expostas ao frio gerado pelo ar-condicionado e abraçou-o, beijando o seu rosto, procurando não acordá-lo. Ele sorriu, beijou-a de volta sem abrir os olhos e virou-se, para encaixar-se melhor no abraço.

Ele dormiu mais um pouco, ela manteve-se cochilando e acordando periodicamente, pensando sobre onde estava e o que era aquilo tudo, sempre com o mesmo sorriso bobo. O mundo poderia desabar assim que se levantasse daquela cama, mas estava confortável ali. E, acima de tudo, estava feliz.

Por fim dormiu novamente. Enquanto ela dormia, ele acordou, virou-a cuidadosamente e abraçou-a, invertendo a posição em que estavam. Ela acordou com o movimento, mas preferiu manter seus olhos fechados e simplesmente sentir. Sentir o calor dele contrastando com o frio do quarto, sentir o cheiro e o toque de sua pele, sentir que ele estava tão satisfeito quanto ela própria se sentia.

Passou-se algum tempo. Poderia ter sido alguns minutos ou algumas horas, não havia ninguém contando ou se preocupando realmente com isso. Ele ergueu-se ligeiramente, tocou o nariz dela com o seu e deu-lhe um beijo.

- Bom dia.



Edicão do conto meio que feita em cima da hora e com sono, vontade de publicar logo...
Perdoem qualquer coisa.

segunda-feira, maio 14, 2007

Os Donos do Mundo



"Tu peux, si tu veux"




O quarto recebeu uma boa dosagem de veneno para insetos. As janelas e portas foram fechadas. Quem sabe assim eu me livraria da quantidade monstruosa de mosquitos que me atormentam nas noites úmidas e chuvosas do inverno.
Depois de uma hora, voltei ao quarto e acendi a luz. Ótimo! Alguns mosquitos mortos no chão, uma aranha e um besourinho. Primeiro pensamento: até que enfim, uma noite de paz! Dormir sem zumbidos incômodos no ouvido e acordar sem milhares de picadas coçando. Aí pensei no lugar em que fui me enfiar; um lugar onde preciso lutar contra insetos quase todo dia.

Já ia desforrar a cama para dormir, quando vi uma coisinha marrom cruzando o chão do quarto. Uma barata! Uma maldita barata!Corri para pegar o inseticida e um chinelo. Depois de “embebedar” a barata, consegui matá-la. Ou acho que consegui. Por via das dúvidas, deixei o chinelo em cima dela, afinal, nunca se sabe se ela foi esmagada o suficiente.

Baratas são um inferno! Não morrem com qualquer inseticida, são capazes de viver sem cabeça até que a fome as mate e é necessário esmagá-las umas três vezes para ter certeza de que realmente morreram.

Uma vistoria no ambiente me garantiu que só havia aquela barata. E nada de mosquitos ou aranhas ou... O besouro se mexeu! Ele não deveria estar morto? Vai ver é mais um daqueles insetos viciados. Os inseticidas estão se transformando no álcool deles. Na cocaína, talvez. Nada de chinelo, um tamanco vai garantir minha segurança com mais eficiência.

Nada mais balançou as patinhas nojentas. Imaginei que pudesse dormir em paz, finalmente. Até ouvir um zumbido. Um mosquitinho. Não, dois. Eles estão chegando! Poderia colocar mais inseticida no quarto, mas estou com muito sono. Realmente preciso dormir.


O jeito é ligar os dois ventiladores, me cobrir dos pés à cabeça e esperar que, ao menos por uma noite, o repelente de insetos cumpra sua função.

quarta-feira, abril 04, 2007

Vendo a Noite com Outros Olhos



"Pra sempre é pra sempre"




Hoje vi uma poesia no pôr-do-sol. Um poema trágico, que ninguém mais viu. Os versos não escritos começavam rubros sobre minha cabeça e iam perdendo as forças em direção ao horizonte, até que terminavam num amarelo desfalecido.

Me pergunto quem - ou o quê - terá morrido. Se apenas o sol, para nascer de novo, se apenas o dia ou se alguma vida teria realmente se esvaído.

A rua de terra à minha frente se mostra completamente diferente, porém igual ao que é todo dia. A luz turva forma uma cortina à minha frente. Esses caminhos que eu percorro todo dia me parecem antigos, muito antigos para uma cidade que não conta 500 anos.

Pouco depois, nasce a Lua. Cheia, soberba, num trono de nuvens fofas e coroada pela própria luz. Toda a graça de uma deusa antiga - e todo o seu mistério.

A lua-deusa se ergue do mar, eu vislumbro por entre os prédios, que parecem tão mal encaixados na cidade. Esses prédios, essas casas, o asfalto mais adiante, os carros que teimam em correr as ruas, com seus ruídos, faróis e buzinas. Tudo isso parece descontextualizado. Por algum motivo eles não deveriam estar ali. A cidade não deveria estar ali. Apenas a praia parece estar no lugar certo.

A luz sobrenatural da Lua parece exigir a extinção da cidade, ao menos por alguns momentos. Páro de ouvi-la, de vê-la. Só há a praia, a luminosidade lunar e eu; que nem lembro de ter caminhado até a areia. Sento-me e ouço a rebentação das ondas. Tão calmas e relaxantes e ainda assim tão furiosas e dominadoras.

A noite parece me lembrar de tudo aquilo que li um dia, que estudei em aulas de história, que sei de culturas antigas. Parece me falar de como era soberana e temida. De como era venerada. Me conta das danças sagradas, oferendas e sacrifícios. Me conta das suas sacerdotisas. Me leva para o seu tempo.

Com o passar do tempo, a Lua se afasta da terra, se afasta de mim. Diminui e se esconde por entre as nuvens, quase como em protesto. Havia perdido suas oferendas, suas danças, seus sacrificios e a devoção antes a ela devotada. Deixa de ser uma Deusa e volta a ser um simples satélite. Deixa de ser sagrada, é só mais um fruto do acaso. Um corpo celeste girando em torno de outro. E eu sou tragada devolta a esse tempo.

E o sol nasce. Uma outra poesia sendo escrita. Um outro dia nascendo. Os raios como lanças a rasgar o véu da noite, vindo do mesmo mar onde a lua havia nascido. Uma poesia delicada como bruma, que se desfaz sob o calor do próprio poeta.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Conhecendo o Desconhecido - I





As hard as diamonds.




Os confortáveis sapatos pisavam no concreto da calçada de um bairro sul de Chicago. Nicole se perdia em pensamentos enquanto planejava a sua tarde: deveria se encontrar com Mabel, aquela jovem-rica-mimada que conheceu na noite anterior, e depois estaria supostamente livre. Planejava ir no hospital, visitar o Matt. Gostava de fazer isso de vez em quando, apesar de duviddar que ele pudesse ouvir as coisas que falava. Bem, ao menos ele era um bom ouvinte - não a interrompia. E aquela agora, Mabel? Ela estava em um hospital a noite passada. Será que alguém importante estava muito mal? Com certeza essa pessoa não estava bem, pois não estaria num hospital, não é?

Conseguia ser tão idiota às vezes. Por que não era como as pessoas normais, que pensavam em coisas como "e o que eu vou fazer esse fim de semana?", ou "será que eu deixei o gás ligado?". Certamente seria um problema se tivesse esquecido o gás ligado...

Por que a rua estava tão deserta? Devia ser o horário.

Não demorou a avistar Mabel Yonker. Os cabelos loiros brilhavam no sol da tarde, e ela lhe dirigiu um olhar de reconhecimento, seguido de um aceno. Imaginou se ela era loira de verdade. A própria Nicole já havia sido ruiva antes, quando morava na França. Pena que não podia pagar mais luxos assim. Achava azul uma cor muito bonita.

- E então, tudo bem? - perguntou Mabel, levantando-se. Era uma moça bonita, pôde reparar.
- Tudo sim. Quer um pouco? - ofereceu o copo plástico com ovomaltine do Bob's. Quando percebeu o olhar de estranhamento, explicou. - Meu almoço.
- É por isso que você é tão magra...

Nicole ignorou o comentário, sem saber se levava como elogio. Pelo menos não fazia parte das estatísticas da população obesa americana.

- E então, onde ela está?
- Bem ali, dois quarteirões acima.
- Eu não vim sozinha. Dois amigos meus estão comigo, e um deles você conheceu ontem. É aquele que vem ali. O outro está fingindo ler um jornal ali do outro lado...

Mabel continuou a fala, enquanto Nic0le refazia mentalmente os passos da tarde anterior. Voltava para casa, no final da tarde. A rua estava movimentada ontem, lembrava. Por que é que estava tão deserta agora? Voltava para casa. Devia estar pensando em alguma coisa, pra variar, quando viu uma mulher sentada no chão, chorando. As pessoas passavam por ela como se não estivesse ali, como se simplesmente não existisse. Não existia mais uma fagulha de humanidade nessa gente?

Se aproximou dela, e então percebeu porque ninguém mais a notava. A pele estava completamente queimada, desfeita em boa parte do corpo. Pedaços inteiros de carne se desprendiam do corpo e se esvaeciam antes de cair no chão. O choro era compulsivo e tinha um somo inumano, gutural. Nicole não sabia o que fazer. Não estav com medo - não muito, pelo menos. Quando ver espíritos se torna algo comum e habitual, você passa a encarar isso de um modo natural. Quase como respirar, andar, e todas essas coisas. Quase.

- Senhora... você está bem? - que pergunta mais estúpida, Nicole. É claro que ela não está bem.
- Você... pode me ver? Você pode me ver?

De um modo rápido e com uma voz falha, ela contou o que aconteceu. Assassinada; seu carro foi carbonizado Era aquele ali no final da esquina. Era professora universitária, trabalhava numa pesquisa, e agora sua aluna corria perigo. Mabel, o nome dela. Mabel Yonker.

- Eles irão atrás dela também... faça ela parar... faça ela parar! Diga a ela, diga que pare! - a mulher parou um pouco, tentando pensar. - Se ela parar... eu posso ir embora?
- Eu... espero que sim.

- O que disse, Nicole? - a voz de Mabel a fez voltar à realidade.
- Hã? Não, nada. Pensei alto. Você tem certeza de que... pode vê-la também?
- Não se preocupe com isso. Eu posso. Mas o que ela havia dito-
- Esperem. - falou o homem de meia-idade, cujo nome ela descobriu ser Simon. - Há algo... estranho nesse lugar. Vocês não podem sentir?

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Notícia de Jornal





Love is just a game



Era um lugarzinho pacato, não muito violento ou badalado. De fato, a maior novidade girava em torno de um grupo de jovens que se hospedavam numa das pousadas dali. Aparentemente, eles descobriram um lugar ótimo para fazer “turismo radical” nos limites da cidade. A área era realmente bonita e propicia para tal atividade. Tinha morros, quedas d’água, ficava próxima da mata. Tudo o que os visitantes queriam.

No entanto, o jornal local se cansara disso. Seus leitores não escalavam pedras, pulavam de pontes nem faziam trilhas na floresta. As notícias e informações sobre o que aquele grupo fazia ali já não atraía os habitantes da cidade. O redator-chefe também não agüentava mais publicar sobre enterros, casamentos e batizados. Seu jornal precisava de ação, emoção, talvez de sangue. Será que não havia um caso de adultério seguido de homicídio? Quem sabe um jovem drogado agredindo os transeuntes?

- Desculpe, senhor, mas o máximo que aconteceu foi uma briga entre dois vagabundos – Disse um jornalista, com voz cansada.

- E o que aconteceu?

- Nada demais. Só um olho roxo.

- Então, a notícia terá que ser criada. – Resolveu o redator-chefe, com um brilho estranho nos olhos.

No dia seguinte, a notícia lida pelos moradores da pequena cidade continha medo, violência e sangue. Um mendigo matou outro com pauladas na cabeça. Disputa territorial, o agredido estava dormindo no banco da praça que “pertencia” ao outro. De quebra, ainda roubara a latinha de cola do agressor.

Fato parecido era realmente novidade por ali. Havia brigas, é claro. Tinha aquele senhor que era alcoólatra, outro que discutia toda noite com a mulher. Mas homicídio, drogas; aquilo assustou a população.

Os velhinhos, aterrorizados, pararam de conversar na calçada ao anoitecer. As mães passaram a super-proteger seus filhos. Os homens discutiam entre si, no intervalo dos jogos de futebol dominicais, sobre como as pequenas cidades haviam perdido a vantagem de serem seguras. Esse mundo estava perdido! Não havia mais segurança ali, então não havia segurança em lugar algum desse planeta!

E, naquele dia, o jornal vendeu. Vendeu como nunca!



* Reedição, ainda que nunca tenha sido publicado no Membrana. Fernanda está passando por um pequeno bloqueio criativo (ataque de estrelismo) e resolveu não publicar nada novo esses dias. A idéia de publicar justamente esse conto partiu do Rascunhos de uma Mente.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Conversas no Pomar




Quanto mais queijo, menos queijo.



Era tarde e o sol brilhava quente sobre o solo tropical. Ele visitava seu amigo nesse país estranho, para apresentar suas condolências diante da morte do pai.

Não que o amigo gostasse tanto assim do pai. Fora um homem rico. Riquíssimo! E sovina como nunca a história reportara antes. Morrera na semana anterior, mas nem todos os seus compatriotas puderam comparecer ao funeral, tendo em vista que naquela época não tinha como atravessar um oceano a não ser em navios. E os navios eram muito lentos. Aqueles que se importavam muito com o velho senhor fizeram a viagem quando souberam que sua enfermidade agravara. Esses ficaram desapontadíssimos quando o velho finalmente morreu e seus nomes simplesmente não constavam no testamento. Desiludidas, voltaram para suas casas.

O testamento trazia um nome, e apenas um: o do filho mais velho do sovina. Nem na morte este pensara em distribuir seus bens, concentrou-os todos nas mãos do seu filho. O dinheiro, as propriedades - desde casas em Londres a fazendas de gado em Minas Gerais -, os navios mercantes. Não pensou ao menos na mulher ou na filha.

Para sorte dessas duas mulheres, o rapaz não era como o pai. Sabia que sua mãe era uma boa administradora, deixou parte da fortuna nas mãos dela, já havia arrumado um noivo competente para sua irmã, que poderia ajudá-lo a controlar as finanças e daria algum status à família. O pretendente era um lorde inglês, jovem, bonito, educado e amigo de infância do filho do falecido.

O lorde chegou, instalou-se num dos grandes aposentos da fazenda e foi conhecer a propriedade com seu amigo, enquanto discutiam seus últimos estudos. O maior interesse dos dois jovens era a ciência. Eles queriam fazer alguma diferença, marcar a história. O rapaz, novo dono das terras, discutiu alguns minutos com um de seus empregados a respeito dos novilhos recém-nascidos num português inpecável e guiou seu amigo até o pequeno pomar onde, enquanto o fazia provar carambolas, contou de seu mais novo projeto: uma biblioteca.

Não uma biblioteca qualquer, mas uma grande biblioteca; mandaria trazer livros de todo o mundo, talvez até mandaria traduzi-los para o português, faria vários andares, mesas amplas, cadeiras confortáveis. O projeto estava pronto, a construção da biblioteca começaria dali a pouco tempo e levaria um ou dois anos para ficar pronta.

O lorde riu, achou a idéia fantástica e sugeriu que o amigo exportasse aquelas frutinhas estreladas para a Inglaterra. Os dois voltaram à antiga casa senhorial para se arrumarem para o jantar, onde o lorde conheceria sua futura noiva, antes de voltar à Inglaterra e encerrar seus estudos.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A Biblioteca




Quem não arrisca, não vive.



Era um perfeito cavalheiro do século 19. Entrou calmamente pela porta da velha biblioteca, com suas roupas antiquadas e sua bengala com punho de ouro. Aquilo sugeria que era rico. Talvez um nobre. Não sou de prestar atenção à cada ser que cruza as portas de vidro, mas aquele prendeu o meu olhar.

Estava estudando, como quase todas as tardes daquela época, rodeada por anotações e livros - meus e da biblioteca. Eram 3 horas, horário em que o sol está baixo, mas nem tanto, esquentando as paredes, refletindo nas prateleiras e esculturas antigas de madeira e trazendo aquele sono e aquele marasmo quando ele entrou.

Olhou em volta, tirou seu relógio de bolso e examinou as horas, voltou a olhar a biblioteca e espantou-se com as prateleiras de metal. Pouco depois, me viu e notou que eu o encarava. Fez um meneio de cabeça e sorriu. Sorri de volta, envergonhada, e desejei-lhe boa tarde. Perguntei se não gostaria de se sentar. De certo modo, ele não me parecia um lunático que arranjou umas roupas velhas num antiquário e queria zombar das pessoas ao redor. E estava certa.

Sentou-se um pouco sem jeito e pareceu chocado ao constatar que eu usava um vestido simples. Perguntou-me como eu tinha coragem de sair por aí usando roupas de baixo. Disse-lhe que não eram roupas de baixo e fiquei pensando sobre seu modo de falar. Era tão rebuscado e antiquado. Indaguei quem era e de onde viera. Um lorde. Um lorde inglês, para ser mais exata. Um amigo do fundador daquela biblioteca, inclusive.

Impulsionada pela curiosidade, perguntei-lhe outras coisas. Ele quis saber mais algumas sobre mim e sobre o que eu fazia ali. Puxou um monóclo para ler a minha pesquisa. Achei engraçado, perguntei porque não usava óculos, como todo mundo, para atiçá-lo. Como ele não sabia o que era, fui atrás de um livro, espantada com o que estava acontecendo. A não ser que fosse um ator espetacularmente bom, o homem era mesmo um cavalheiro do século 19.

O cavalheiro ficou espantado ao constatar que não estava mais "em casa", e sim dois séculos adiante. O que explicava muita coisa para ele. Ficou encantado com os carros de atualmente e perguntou-me se não podia arranjar-lhe um relógio de pulso. Pedi que me mostrasse seu relógio de bolso e expliquei que tinha um certo encantamento com as coisas da época dele e anteriores.

O relógio era belo. Feito em prata, com uma locomotiva à vapor entalhada na frente. O cavalheiro explicou-me que aquilo era a maior novidade no campo dos transportes. Abri seu relógio e fechei-o algumas vezes e ele riu da minha curiosidade.

Emprestei-lhe meu relógio de pulso e ele pareceu igualmente intrigado. Foi a minha vez de rir. Não atrevi-me a pedir seu relógio mas dei o meu. Disse-lhe que não deveria funcionar por muito tempo, afinal ele não acharia as baterias para mantê-lo funcionando. No primeiro momento, ele não quis aceitar, mas expliquei que tinha outro em casa, então ele agradeceu e quis me recompensar de alguma forma. Deu-me uma moeda de ouro. Achei um exagero, mas ele insistiu que eu aceitasse.

Passamos o resto da tarde conversando sobre as diferenças entre nosso tempos. Eu espantei-me como ele aceitara bem a idéia de estar em outro século. Talvez ele soubesse mais do que eu. Às cinco e meia ele olhou novamente em seu relógio, levantou-se apressado e disse-me que precisava ir. Uma carruagem o esperava na entrada e ele precisava comparecer a um jantar dali a pouco tempo.

Deu-me um levíssimo beijo na mão, virou-se e foi embora. Observei sua silhueta passar pela porta de vidro da biblioteca e, depois de alguns minutos, resolvi segui-lo. Saí da biblioteca e observei o saguão. O homem simplesmente sumira. Ninguém o vira passar. Voltei para a minha mesa, reuni minhas coisas e fui para casa.

Nunca esqueci aquelas poucas horas, as feições daquele jovem lorde ou o jeito como se inclinou para a minha mão. Nunca esqueci seu relógio de prata. Não tenho idéia se foi apenas um sonho numa tarde de marasmo ou se realmente aconteceu. A memória, no entanto, não poderia ser mais vívida.

sábado, dezembro 09, 2006

O Cravo e A Rosa

O Cravo não brigou com a Rosa. Isso é balela. De vez em quando talvez ele tenha vontade. Ela também, mas ele é um Cravo calmo e ela está conseguindo controlar seu lado explosivo. Nada de sacadas envolvidas, essas coisas são perigosas.

A parte de feridos e despetalados é verdade, mas é o inverso. Ele anda se despetalando, às vezes com besteiras. Ela está ferida, mas não deixa ninguém saber. Também não sabe explicar exatamente porquê ou onde está ferida. Coisas de mulher, é complicado.

O Cravo realmente ficou doente, mas foi depois da Rosa. A Rosa adoeceu primeiro, mas inquieta do jeito que é não quis saber de ficar em casa. O Cravo foi visitar e ela fez com que ele a levasse para passear. No passeio ela teve alterações de humor extremas que acha que ninguém notou. Além de alterações no estado de saúde, porque ela melhorou, depois piorou, aí melhorou de novo... Já viu, né? Mas fazer o quê?!? Essa Rosa não sabe ficar quieta, precisa de atenção mas precisa também que o ar circule. Não é como a Rosa Branca, aquela Rosa calma de voz suave que se desmancha ao primeiro toque.

Enfim a Rosa ficou quase boa. Aí então o Cravo ficou doente e foi a vez da Rosa visitar. O Cravo passou mal e estava semi-consciente e a Rosa, que não é adepta disso de chorar por qualquer coisa, tirou sua temperatura, fez o que podia fazer (que era únicamente verificar se ele estava confortável) e foi embora, assim o Cravo poderia descansar em paz e ela também.

Daqui a pouco ambos estarão em suas condições normais. A Rosa ferida sem saber como explicar e o Cravo despetalando-se enquanto a Rosa tenta mostrar que não precisa disso tudo. A Rosa pensando como seria se ela fosse um Girassol, só na boa, deixando o Sol guiá-la, e o Cravo olhando pra Rosa Vermelha ao seu lado, de quem ainda gostava apesar das pontas das pétalas meio queimadas, mas pensando como seria se a imaculada Rosa Branca estivesse plantada ao seu lado.

Felizmente uma nova Estação está por vir. Novas Estações costumam consertar as coisas. Vamos ver se essa trás alguma animação e alguma decisão para esse jardim estranho.




terça-feira, dezembro 05, 2006

Um Dia de Formiga

Os humanos são seres estranhos. Eles sempre deixam alguma comida disponível para nós, mas nos matam assim que nos vêem. Sendo assim, temos fugido desses seres, procurando a comida que eles nos oferecem apenas quando não estão por perto.

Uma noite dessas reuni meu batalhão e após verificar aquele cômodo que os humanos chamam de cozinha e me certificar de que estava vazio, marchamos em direção às empadas que deixaram para nós em cima da Caixa Branca. Estavamos, eu e minhas companheiras, juntando pedaços para levarmos para nossas casas quando um humano chegou.

Era um humano fêmea, penso eu, que nos viu e tentou evitar que juntássemos nossa cota de comida, fechando as empadas num pote de um material que não conseguíamos atravessar. A maioria das minhas companheiras escapou. Eu fiquei, com algumas outras.

O tal pote começou a esfriar de repente. Foi esfriando mais e mais e mais e decidimos que o melhor seria ficarmos o mais quietas possível e suspender qualquer atividade no nosso corpo. Quem sabe assim sobreviveríamos.

Passaram-se horas intermináveis. Talvez dias, quem sabe? Eu estava dormindo, não posso ter certeza de nada. De repente, o pote começou a esquentar. Esquentava cada vez mais. Várias de minhas colegas morreram no processo. O pote não estava mais fechado e pude ver que a mesma humana que nos prendera ali havia nos colocado na Caixa Branca e agora nos tirava dela. Pouco a pouco as colegas vivas foram despertando. Cada uma de nós que acordava tentava se comunicar com uma que ainda dormia. mexiamo-nos lentamente e acho que a humana notou isso.

A humana separou nosso alimento de nós e levou-o embora. Nós ficamos no pote, tentando decidir o que faríamos com as amigas mortas e como sairíamos dali. Algumas queriam ficar. Acreditavam que logo haveria alimento no pote, mas eu e outras três achamos perigoso e fomos embora. Bem a tempo, devo dizer, pois o pote foi enchido de água e presenciei a morte de quase todo o resto do batalhão naquela piscina maldita.

Devo avisar a toda a Comunidade Formiga. Esses humanos estão zombando de nós e preparando diferentes técnicas d tortura. Já viram que sobrevivemos ao frio e ao calor, ainda que com dificuldade. Daqui a pouco acharão uma forma eficaz, lenta e dolorosa para nos matar, além do afogamento. Devemos nos preparar para a batalha e atacarmos o quanto antes.


segunda-feira, novembro 13, 2006

Invasão

Aula num colégio particular, logo após o intervalo. O professor sem graça fala sobre um assunto sem nexo para um bando de alunos sem interesse, que prontamente ignoram o pobre homem a sua frente.

Para azar desse e dos outros professores, bem como a coordenação, há uma queda de energia, deixando as salas de aula sem luz ou ar-condicionado. A gritaria começa e os alunos se esparramam pelos corredores protestando contra a possibilidade de assistir aula numa sala quente, mais do que felizes pela desculpa que o acidente lhes ofereceu para que corressem, gritassem e enlouquecessem aqueles que, supostamente, são responsáveis pelos alunos dentro de um colégio.

Após quase uma hora, os inspetores e coordenadores conseguiram colocar a maior parte dos alunos para dentro de sala. Abriram as janelas e a aula prosseguiu, não do mesmo professor chato, mas de outro; que não deixava o primeiro para trás em matéria de assunto tedioso.

De uma das janelas surgiu uma borboleta de asas azuis e amarelas. Uma garota no fundo da sala notou a entrada do inseto e passou a observá-lo. Daqui a pouco entram mais algumas e em poucos minutos são cinco passeando pela sala e indo em direção a porta, como se quisessem visitar o colégio. Não bastassem borboletas, pássaros resolveram que aquela instituição era um lugar muito legal de se conhecer. Vieram aos montes! Aglomeravam-se no teto e faziam um barulho desgraçado, todos piando ao mesmo tempo. Umas duas abelhinhas curiosas acabaram sendo arrastadas por eles e, no meio da confusão, atacaram o professor! Horrorizado com toda a confusão e com a dor de ser ferroado na testa e na bochecha, pouco abaixo do olho esquerdo, saiu gritando pelos corredores!

Os pássaros se manifestaram aumentando o barulho, sujando as salas, seguindo para as outras, bloqueando a visão das pessoas e espalhando penas por aí! As borboletas eram muito sensíveis para essa bagunça toda e foram embora o mais rápido possível!

Lá embaixo, elas observavam tudo. Esperavam pacientemente que o caos se instalasse e as pessoas estivessem atordoadas, sem saber o que pensar. Escalaram as janelas e invadiram as salas. A medida que entraram, expulsaram os pássaros, fecharam as janelas e renderam todos.

Aquilo era um protesto, explicava a vaca comandante de toda a invasão, contra os fazendeiros e ordenhadores, pelos abusos que cometiam contra esses pobres mamíferos! Quem se mexesse, levava leite na cara!

Mais uma vez soa o toque, ecoando naquele silêncio. A menina acorda. Hora de ir para casa. O professor guarda suas coisas calmamente enquanto a turba de alunos corre ao seu redor. A borboleta continua pousada tranqüilamente no parapeito da janela.

domingo, novembro 12, 2006

Na Terapia

- Reconheço que tenho um problema, doutor.

- Humhum.

"Aleluia!” Pensa o pobre coitado do psicólogo. Há dois anos aquele jovem o visitava semanalmente, por imposição da mãe, e jamais admitiu ter qualquer problema. Finalmente iria dizer que era excessivamente tímido e introvertido, tinha problemas com sua altura, dificuldade para se comunicar com os outros e conflitos com o pai.

- Vacas.

- Como?

- Estou obcecado pelas vacas!

- Como assim? Que tipo de vaca?

- Todo tipo de vaca! Malhadas, leiteiras, com chifres, sem chifres, gordas, magras... Até vacas de desenho animado!

-Prossiga.

O terapeuta esperava outra confissão do garoto, é verdade. Mas se ele estava a fim de falar sobre vacas, que falasse. Quem sabe isso não revelaria algo a mais sobre ele? Talvez tivesse algum trauma de infância.

- Há mais de um mês sonho com elas. Às vezes é uma coisa simples: as vacas pastando em colinas verdes, mugindo, os bezerrinhos mamando. Já sonhei com vacas pulando cerca, como se fossem ovelhas. Vacas vestidas, indo trabalhar.

- Certo. Me conte com calma, não precisa se exaltar.

- Ontem sonhei com vacas carnívoras, que comiam carne de humanos. Os humanos eram o gado, entende? E as vacas dominavam o mundo.

- Você vê essas vacas só em sonhos?

- É. Não. Bom, encontrei uma vaca na rua, ontem. Era uma vaca comum, tava pastando num dos terrenos baldios, perto da minha casa. Você sabe, eu moro num bairro distante, pouco povoado...

- Qual a impressão que a vaca lhe causou?

- Ela falou comigo, doutor! – O paciente estava de olhos arregalados, como se tivesse acabado de ouvir a vaca falar. – Ela disse que nosso fim está próximo e que hoje elas vão explodir o empresarial mais importante da cidade!

O empresarial, óbvio, era aquele onde se encontrava o consultório.

O psicólogo estava preocupado com o garoto. Iria encaminhá-lo a um psiquiatra e pedir exames de sangue e urina, para ter certeza de que ele não estava usando alucinógenos.

Antes que pudesse dirigir novamente a palavra ao seu paciente, o jovem transtornado saltou da cadeira, gritando, e correu para fora do consultório. Iria tentar alcançar a segurança das ruas pela escadaria de incêndio.

Quem olhasse pelas janelas voltadas para o leste, poderia ver vacas saltando de pára-quedas, com granadas nas patas, que elas atiravam para dentro do edifício, quebrando as vidraças.

sábado, novembro 11, 2006

A Vaca

- Tio! Você sabe desenhar bicho?

- Sei.

- Qualquer bicho?

- Qualquer bicho. Você quer que eu desenhe um pra você?

- Quero! Desenha uma vaca!

- Certo.

O tio esperava que a menina pedisse um gatinho, borboleta, coelhinho; essas coisinhas fofinhas que menininhas sempre pedem. De qualquer modo, que mal haveria em desenhar uma vaca?

- Amarela. E com a barriga rosa. E não uma vaca de verdade, desenha ela em pé, com os braços abertos.

E ele começou a desenhar a vaca para sua sobrinha. Quis fazer no estilo de desenho animado, porém a menina protestou. Não queria uma vaca de verdade, mas também não queria que fosse tão de mentira assim.

- E esse nariz?

- O que tem o nariz?

- Faz mais redondo. Assim, como uma tomada. E o chifre tá muito grande!

- Então você quer um focinho de porco numa vaca mocha?

- O que quer dizer mocha, tio?

- Que não tem chifres. Vou diminuir o dela, tá bom? Tem certeza quanto ao nariz?

- Daqui a pouco eu vejo isso. Faz um óculos desses de motorista de avião!

- Um óculos de piloto de avião. Na vaca.

- É! Nos olhos dela!

O tio se surpreendera com a fertilidade da imaginação de sua sobrinha. Mas se ela queria uma vaca amarela e rosa, mocha, com fuça de porco e óculos de aviador, por que não?

- Agora desenha a mochila, tio!

- Que mochila?

- A do pára-quedas, né? Ela tá no céu!

- Mochila do pára-quedas!?! ...

- É, essa vaca não voa, só a do desenho animado que passa da tv é que sabe. Faz o pára-quedas aberto, senão ela se esborracha.

Cega a vaca não ficaria, afinal já tinha os óculos! Ele riu da criatividade da menina! Quem sabe não a chamaria para ajudá-lo, quando precisasse ilustrar um livro infantil? E deu à vaca um pára-quedas vermelho.

- Mas... vermelho? Não combina com os óculos!

- Ah, não?

- Não! Os óculos são azuis!

- Você não acha que, com os óculos azuis, o pára-quedas azul e o céu azul, vai ficar tudo azul demais?

- Mas o céu não é azul.

- Não?!

- Não. Ela tá saltando ao pôr-do-sol; tem que ser rosa. E laranja; e vermelho; e lilás!

- E a barriga da vaca?

- É rosa clarinho, feito cor de pele.

- Certo. Mais alguma coisa?

- O nariz! Faz ele redondo, mas sem ser de porco. Porco é feio.

- Então tá. Aqui está a sua vaca.

- Obrigada, tio!

E a menina sapecou um beijo na bochecha do tio e foi mostrar pra chata da irmã, apenas dois anos mais velha, que vacas pára-quedistas existiam sim, tá?

sexta-feira, novembro 10, 2006

Uma Tarde Muito Comum

Uma garotinha ia andando pela rua, ao longo de um parque, num dia ensolarado. Ela tinha três balões numa mão, um ursinho de pelúcia na outra, choviam flores do céu e borboletas brilhavam em seus arbustos.

Lagartinhas dançavam o Cancã no gramado verde-limão e girassóis lilases aplaudiam.
Os cogumelos, que cresciam em abundância no verão, tinham um lado azul e um vermelho e cada lado transportava para um canto diferente. Você poderia ir para Zion ou para o País das Maravilhas.

Alice ainda era muito nova para conhecer o país estranho. De qualquer modo, o Chapeleiro ainda não era maluco e o ratinho do bule ainda não sabia recitar o poema da estrelinha, então não teria tanta graça.

Ela soltou seus balões, que foram esperá-la à sombra de uma árvore, e sentou-se para conversar com os homens-biscoito, muito confeitados com seus enfeites, que evitavam as poças de leite.
Um dos homens-biscoito colheu algumas das minúsculas flores que choviam e deu para o ursinho de Alice.

Aviões chamaram a atenção deles. Eram as vacas pára-quedistas, que realizariam piruetas no céu rosado do meio da tarde.

Quando elas começaram a cuspir fogos de artifício, como num show pirotécnico, eu acordei. Até para mim loucura tem limite.

domingo, outubro 29, 2006

Uma História Grega - Parte III

Menelau, claro, foi em busca de sua mulher. Convocou todos os reis gregos e deu-se início à Ilíada.

Os deuses se dividiram, uns pro lado de Tróia, outros pro lado da Grécia. Alguns, como Zeus, não tomaram partido. Hera e Atena, obviamente, ficaram do lado da Grécia, assim como Poseidon; ele tinha raiva dos troianos. Zeus o obrigou, junto com Apolo, a construir a muralha de Tróia e o rei de Tróia se recusou a pagar o que ele devia aos deuses. Apolo, ironicamente, ficou do lado dos troinanos. Afrodite também ficou do lado de Tróia e pediu queo mesmo fosse feito por seu filho. Psiquê não ficou muito feliz.

- Você realmente precisa ir, meu amor?

- Você sabe que sim.

- Quem vai ficar comigo durante esse tempo?

- Não vou me demorar muito. Sei que ainda não se recuperou dos trabalhos que minha mãe impôs para que continuássemos juntos.

- Me desculpe. Eu não quis quebrar as regras...

- Já está desculpada, mas a gente pode não tocar no assunto?

- Tá certo.

- Eu vou lá, bato o ponto, dou um beijo na minha mãe, um tchauzinho pros troianos e venho te fazer companhia, tá certo?

- É por isso que eu te amo!

Afrodite não gostou muito dessa atitude do filho, mas pelo menos ele aparecia quase todo dia. Além do mais, a guerra a empolgava.

No fim das contas, Tróia acabou derrotada. Helena, que casara com seu cunhado, Deífobo, entregou-o a Menelau quando Tróia caiu, sendo levada de volta para Esparta e perdoada. Ela viveu mais alguns anos com seu marido e seus filhos. Quando Menelau morreu, Nicostrato a expulsou de Esparta. Ele não gostou muito de ter sido abandonado por 10 anos.

Helena foi embora, morar com a rainha Polixo, uma de suas amigas, em Rodes Um belo dia, após o banho, Helena foi enforcada por uma serva. Essa serva vivia em Argos antigamente e morria de ódio da bela Helena, pois por causa dela seu marido havia morrido na guerra de Tróia. Algumas versões dizem que foi a própria rainha que matou Helena.

Claro que, sobre o fim de Helena, há milharem de versões diferentes. Algumas dizem que morreu junto com Menelau. Outras falam do seu enforcamento. Tem uma versão que conta que Helena se casou com Aquiles, após a morte de Menelau, e foi morar nas Ilhas Afortunadas.

sábado, outubro 28, 2006

Uma História Grega - Parte II

A mulher mais bela do mundo era Helena, filha de Zeus e Leda. Pra conquistar Leda, que era mulher do rei Tíndaro, Zeus se transformou num cisne. Ele a seduziu e Leda... botou dois ovos?!? É a história é assim mesmo. Desses ovos, nasceram Clitemnestra, Helena, Castor e Pólux. Tíndaro não era bobo e notou que Helena e Pólux eram filhos de Zeus. Ainda assim, quer honra maior do que criar os filhos de um deus? E ele os criou como se fossem sangue do seu sangue.

Claro que teve milhões de problemas com Helena. Ser a mulher mais bela do mundo não é nem um pouco fácil. Todo mundo queria se casar com ela. Claro que só reis e nobres foram pedir sua mão ao pai (Tíndaro, não Zeus). Dentre os muitos candidatos, Tíndaro anunciou que Menelau se casaria com Helena e que todos os outros deveriam se unir a ele e ajudá-lo, caso algo acontecesse com Helena. Velhinho sábio esse, acho que sabia que ter mulher bonita na família dava trabalho.

Tíndaro não fez muito além de juntar Helena e Menelau, provavelmente o estresse não fez bem ao seu coração, porque ele morreu sem ver a festa de casamento. Helena teve dois filhos com Menelau: Hermíone e Nicostrato.

Menelau, um dia, fez uma bela festa para todos os antígos pretendentes de Tróia e Páris foi. Não sei se de enxerido ou pra representar seu irmão, Heitor. Mas ele foi, Menelau o recebeu muito bem e Páris fugiu com sua esposa.

Páris achava que estava no seu direito, afinal ela lhe fora prometida por Afrodite. E foi Afrodite que ajeitou as coisas, com ajuda de seu filho, Eros. Senão Helena provavelmente não teria abandonado seus filhos. Eros não achou uma idéia tão boa.

- Tem certeza disso, mãe? Olha que a confusão vai ser grande.

- Que nada! Os gregos tem suas protetorazinhas, não têm?

- Mãe, olhe lá. Helena tá casada, tem seus filhos que ama, Páris não nasceu sob bons auspícios...

- Psiquê provavelmente não pensará o mesmo.

- Deixa Psiquê fora disso, mamãe!

- Ué! Posso mandá-la de volta pras irmãs invejosas! Ou amarrá-la num rochedo. Quem sabe uma bela constelação, para homenagear o amor que ela sente por você. Assim, pelo menos, ela será eterna.

- Tá, mãe. Quantas flechas você quer pra não afastar Psiquê de mim?

- Esse é meu filho lindo! Agora estamos nos entendendo!

E Eros fez seu trabalho, Helena se apaixonou por Páris e foi com ele pra Tróia.


*** continua ***

sexta-feira, outubro 27, 2006

Uma História Grega

Páris não conhecia os verdadeiros pais, porque uma profecia dizia que o menino seria uma derrota. Mas a história não começa com ele, começa com um banquete. Na verdade, começa antes do banquete, começa com Tétis.

Tétis era uma linda ninfa do mar e todos os deuses queriam ter algo com ela, inclusive Zeus e Poseidon. Acontece que Prometeu, aquele Titã que ensinou os humanos a fazerem fogo e foi amarrado no alto duma montanha com o fígado sendo comido dia após dia por uma ave de rapina; o fígado, naquela época, ainda não tinha essas habilidades de regeneração, mas Zeus fez com que tivesse, pra Prometeu continuar sofrendo. Isso foi muito útil quando inventaram a bebida alcóolica.

Mas acontece que Prometeu profetizou que o filho de Tétis seria maior que o próprio pai. Aí nenhum dos deuses quis ter nada com ela. Imagina: uma das poucas criaturas bonitas do mundo grego que Zeus não tocou!

Zeus chamou Poseidon num canto do Olimpo, pra ter uma conversa séria com ele a respeito de Tétis:

- Vem cá, meu irmão. Tu que é senhor dos domínios das águas, não tem ninguém por ali pra gente casar com Tétis? Ela é bonita, amável, não pode passar a vida assim, sozinha. E eu não sou muito fã de comer criancinhas, como nosso pai, não vou nem me arriscar a tê-la como amante.

- Ora, Zeus! Você já tem amantes demais! Depois, se não fosse a profecia, ela seria minha amante. Muito mais fácil pra nós dois, já que ela pertence ao reino das águas. Mas não tem ninguém que chegue aos pés dela. Quem sabe um semi-deus?

- Não, não. É perigoso demais. Vamos procurar um herói grego. É mais seguro pra gente e deve ter um que seja bom o suficiente pra ela.

- Ouvi dizer que aquele Peleu é o maior dos heróis da atualidade. Por que não ele?

- Boa idéia. Vou lá falar com Tétis, ela vai me ouvir. Organiza o casamento, tá certo? Ah! E não chama aquela Éris não! O mulherzinha encrenqueira!

- Nem se preocupe com isso, não quero ela contando a história da chuva de ouro pra Hera.

- Pô, Zeus! Deixa as pobres das princesas em paz!!!

- Ah, Poseidon, você sabe como é. Eu fico admirando aqui de cima, só olhando, aí o pai vai num oráculo que diz pra esconder a filha, ele esconde... e espera que aconteça o quê? Ninguém pode desafiar um deus poderoso como eu! Além do mais, o fruto proibido é o mais gostoso.

- E por que você não se apresenta à Tétis então?

- Tá pensando o quê? Eu ainda tenho juízo, rapá! E não me desafie nos meus domínios!

Poseidon foi embora, falar com Tétis e Hera chegou em Zeus toda desconfiada. Ele amainou sua descrença deixando a cargo dela a organização da festa. Mulher gosta dessas coisas!

Tétis casou com Peleu, a contragosto, e houve uma bela festa no Olimpo, com todos os deuses, deusas e divindades menores, porém não menos importantes. Só Éris não estava lá. Ela, furiosa, subiu ao Olimpo, invisível. O que eles pensavam? Que podiam negligenciá-la e tudo ficaria por isso mesmo? Ah! Mas não ia mesmo!

Éris fora ao jardim das Hespérides, enrolara as ninfas e pegara um pomo de ouro. Nele, gravou as palavras: "À mais bela" e jogou na mesa onde acontecia o banquele. O pomo rolou até uma das extremidades, onde estavam Zeus, Hera, Palas-Atena e Afrodite. Elas começaram a discutir entre si, sobre de quem deveria ser a maçã. Não chegando a conclusão alguma, se viraram para Zeus:

- E aí, pai? - começou Atena - A maçã vai pra quem? Pra mim, claro, sua filha, não é? Você bem sabe que sou a mais bela das deusas.

- Oras! Só porque ela saiu da sua cabeça acha que tem o direito ao pomo? Você deveria dá-lo a mim, sua esposa e mais bela deusa do Olimpo.

- Ah, Zeus... - falou sedutoramente Afrodite - Eu sou a mais bela das deusas. Quem seria, senão a deusa do amor? Você sabe disso, não sabe? - e piscou o olho para o poderoso deus, que nesse momento estava com a maior cara de pateta do mundo, pensando no que devia fazer.

Após olhar para as três, para sua bela filha, sua bela mulher e a bela e sedutora Afrodite, chegou a conclusão que não queria a fúria de nenhuma das três e resolveu que ia escolher um humano para resolver a disputa. Lá de cima, viu o Monte Ida, perto de tróia, e o jovem pastor Páris.

"É esse mesmo!"

Mandou as três deusas para lá, e ele que resolvesse. Hérmes guiou as três ao encontro de Páris, aparecendo para ele antes dela e explicando a situação. Ele, admirado com a aparição do deus, escutou atentamente e achou que tinha capacidade para escolher qual das três era a mais bela.

As três deusas apareceram na frente de Páris, cada uma na sua melhor forma (Afrodite, obviamente, nua) e cada uma fez uma oferta. Hera ofereceu riqueza e poder. Atena, habilidade militar e sabedoria. Afrodite ofereceu o amor da mais bela mulher do mundo.

Páris estava inebriado pela presença das deusas. Quando conseguiu se concentrar, pensou nas propostas, olhou pro pomo, olhou pras deusas, olhou pro pomo, olhou pra Afrodite. Ela era, claramente, a mais bela. E ainda estava oferecendo o amor da mulher mais bela do mundo. Entregou o pomo à Afrodite.

As outras duas deusas ficaram furiosas! Juraram se vingar e se tornaram inimigas de Tróia.

Já Afrodite, pronta pra tornar a vida do rapaz mais feliz, mandou que fosse para Tróia e participasse das competições da cidade. Lá, sua beleza e suas habilidades atléticas fizeram com que chamasse a atenção de Príamo e Hécuba, seus pais desconhecidos.

Quando estava grávida de Páris, Hécuba sonhou que dava à luz a uma tocha de onde surgiam várias serpentes. Isso foi tomado como um mal presságio. Príamo chamou uma criada e mandou que ela desse fim no menino, quando ele nasceu. A criada foi incapaz de matar um bebê tão bonitinho, guti-guti e fofinho, então abandonou-o na extremidade de uma floresta, aonde ele certamente seria devorado pelas feras locais. Acontece que um pastor viu o bebê abandonado e levou-o pra casa, onde cresceu forte e saudável, tornando-se também um pastor.

Ao verem Páris crescido, forte, belo e habilidoso, seus pais o chamaram ao palácio, reestabeleceram sua real identidade e o acolheram calorosamente. Provavelmente contaram alguma história pro pobre rapaz, pra ele não se sentir mal por ter sido abandonado.




*** continua ***

quinta-feira, outubro 26, 2006

Uma História Francesa

- Paris, a Ville Lumière, nem sempre se chamou Paris, você sabe. E nem sempre teve um apelido bonitinho.

- E se chama Paris por causa de Páris?

- Euh... não.

- Mas não tinha uma cidade francesa que era grega?

- E porque diabos os gregos dariam o nome de um troiano à uma cidade deles?!?

- Tem razão...

- Além do mais, era o que hoje é Marselha que pertencia aos gregos.

- Ah tá.

- E os romanos, quando conquistaram a Grécia, viram aquela cidadezinha, que se era dos gregos, agora era dos romanos. Então eles foram lá conhecer se novo território e aproveitaram pra subir até Paris.

- Que não era Paris.

- Não.

- E os romanos não deram esse nome por causa de Páris.

- Também não. Gosh! Você é irritante, não?

- Tá desculpa. Mas você também é!

- Aonde eu entro na história?

- Duas facetas da mesma mente perturbada; isso te diz algo? Ça te dirai?!?

- Nevermind. E não acho que se usa essa expressão com esse sentido.

- Sim, mas se os romanos não chamaram a cidade de Paris, como foi então?

- É o seguinte. Eles chegaram lá, se depararam com o Siena e com o povo que sobrevivia dele. E notaram que o Sena tomava praticamente a vila toda quando enchia. Quando ele secava, deixava tudo coberto de lama. Os romanos então olharam praquilo e, com sua criatividade genial, chamaram o lugar de Lutece.

- Que quer dizer?

- Lama, em latim.

- Ólhaê! A Cidade Luz era a Cidade Lama! Que bonito! E como ela virou Paris?

- Se você não me interrompesse tanto, já saberia.

- Desculpe.

- Obrigada. Os romanos foram embora, certo? Não responda. Eles se foram e largaram a Bretanha para os bretões. Aí parece que os francos chegaram. Ou eles já estavam lá? Não importa, a França se chama França por causa dos francos. E não me pergunte sobre os bretões.

A face meio doida da mente levanta a mãozinha. A face sábia e inteligente, porém chata, concede que faça uma pergunta.

- Mas só uma!!!

- Se a França era a Bretanha, a Grã-Bretanha era o quê?

- Era a Britânia. Ocupada por diferentes tribos celtas, uma tribo germânica que chegou lá e se misturou com eles, os romanos que chegaram e também foram embora e os hibérnicos, que vinham da Hibérnia, hoje conhecida como Irlanda.

- E Paris?

- Sim, Paris! Paris deixou de ser Lutece e virou Paris, oras.

- Por quê?

- Onde é que eu estava mesmo?

- Nos francos e bretões.

- Sim! Lembrei! Esqueça os bretões um pouco. Os francos acharam que Lutece não era um bom nome. Mesmo que fosse, não queriam manter um nome romano. Então foram buscar um nome no passado daquele projeto de país. Antes que os romanos chegassem por ali, havia a tribo que vivia do Sena, lembra? Pois é. Era uma tribo de pescadores que se chamava Parisi. Os francos então resolveram cortar o último "i" e voilá! C'est un beau nom pour la ville!

- En portugais, sil tu plait...

- Aí está um belo nome para a cidade.

- E Páris nada.

- Nada de Páris.

- Que inútil! Quer dizer que ele só serviu pra ir roubar Helena de Menelau, fazer o rei grego persegui-lo até Tróia, querendo cortar o "menelau" do ladrão fora e f**** com a vida do irmão, Heitor?

- Pois é. E ele nem conhecia o irmão.

- Não?!? Mas...

- Esqueça o filme. Outro dia eu conto a história.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Relação Aberta

Um triângulo amoroso, como tantos outros. Não havia grandes diferenças entre esse e qualquer um dos vários casos espalhados pelo mundo.

Letícia, casada com André há 15 anos. Não tinham filhos, ela não queria. André bem que tentou boicotar a cartela de pílulas, mas ela mudou o método. Como uma mulher moderna, acompanhava o desenvolvimento da medicina e descobriu o mini-DIU. Além de tê-lo implantado, adotou um anticoncepcional em adesivo, por precaução quase obsessiva.

O marido de nada desconfiou no início. A mulher sempre teve manias estranhas, sempre foi extremamente cuidadosa. Não podia reclamar que faltasse organização na casa, comida boa e saudável, nem mesmo do corpo da mulher. Ela cuidava da alimentação, fazia exercícios, ninguém diria que já se aproximada dos 40 anos.

André era um homem bem-sucedido. Bem-sucedido e frustrado. Queria filhos, podia sustentá-los, era louco por crianças; mas Letícia parecia não compartilhar essa vontade. Assim como já não compartilhavam a cama, a não ser em ocasiões especiais.

Ela era fria, distante, não participava do ato. Ele perdera a vontade de estimulá-la. Costumavam ir direto ao ponto, depois cada um virava para o seu lado e dormiam. Frustrados, insatisfeitos, inclusive com raiva inconsciente um do outro, mas nunca conversavam. A rotina continuaria no dia seguinte, inalterada. Aparentemente perfeita; como num comercial de detergente.

É aqui que entra Vítor, colega de trabalho de Letícia. Um moreno alto, sedutor, discreto e pouco confiável. Almoçava com ela todo dia. Passaram a lanchar juntos à tarde também, após certo tempo.

Vítor a conquistou - não que ela não tivesse culpa - e Letícia dedicou a ele a atenção que, há tempos, não dedicava ao marido. O caso se prolongou. Ela não tinha intenção de acabar o casamento e ele estava satisfeito com as vantagens e a liberdade proporcionadas por aquele relacionamento.

Após um longo tempo naquele triângulo amoroso, André começou a desconfiar da mulher. Houve uma festa na empresa dela, para a qual foram juntos. Eles conversavam numa mesa com outro casal e Vítor estava no bar, estrategicamente posicionado para ficar em frente à amante. Seus olhos fixos em Letícia, olhando de relance o generoso decote de seu longo vermelho.

Ela desculpou-se e atravessou o grande salão em direção ao banheiro. Vítor prontamente a seguiu. André percebeu a movimentação. Passou algum tempo na mesa, em dúvida. Talvez a mulher apenas fosse ao banheiro. Daqui a pouco ela estaria de volta. Letícia não o trairia com aquele tipo. Ou trairia?

Seguiu-os. Entrou no banheiro masculino e encontrou Letícia apoiada na pia, com o vestido erguido, aos beijos com Vítor. Olhou-os por algum tempo chocado, então começou a gritar com o homem que agarrava sua mulher.

Ela pediu que ele se calasse e os três seguiram para o luxuoso apartamento do casal. Tentaram agir com calma, André, porém, estava exaltado. Ameaçou a esposa e o amante, discutiu, chorou, exigiu que aquele relacionamento abjeto terminasse.

Apesar da promessa, feita para acalmar o marido, Letícia não chegou a acabar o caso. Seu marido não compareceu mais aos eventos da empresa dela, por escolha própria.

Meses depois, Letícia descobriu Ísis. Recém-formada em turismo, magra cabelos negros, assim como os olhos, cortados na altura do queixo. A garota mantinha uma franja e até parecia ter saltado de um mito egípcio. Apesar da aparência inocente, seus olhos revelavam uma mente maliciosa.

Ísis era, há três anos, amante de André. Conheceram-se numa livraria. Ela derramara café em sua camisa. Pediu desculpas e ofereceu-se para lavar em seu apartamento. Ele poderia esperar, tomar um café, um chá. Quem sabe algo mais?

O casamento não acabou. A vida diurna do casal permaneceu a mesma. Sempre perfeita e eficiente. Já as noites - as poucas que passavam juntos - esquentaram; como nos tempos de namoro. E assim o relacionamento se manteve, a única precaução era manter a cortina de mentiras, mantendo discrição a respeito dos amantes.