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terça-feira, maio 22, 2007

Perguntas Escabrosas








"Os opostos se distraem; os dispostos se atraem".









- Pai, a lua é feita de quê?

Chegou o momento que ele tanto temera: a idade das perguntas. Não que ele se importasse de ter filhos - até gostava de crianças, principalmente se elas estivessem quietinhas na frente da TV se empanturrando se pipoca e refrigerante. No entanto, estavam os dois, pai e filho, caminhando calmamente pelo parque. Aquele garoto gostava muito do parque - temia que um dia ele fosse um ativista do Greenpeace. Ou um hippie. Não que houvesse muita diferença.

- De queijo. - respondeu o pai, sem se preocupar nem um pouco com a verdade. Um dia ele estudaria na escola, e outra pessoa - bem mais preparada que ele, por sinal - revelaria a cruel verdade: a lua era só uma grande bola de pedra lunar que refletia a luz do sol.

- Queijo, pai? Tem certeza?
- Sim, queijo. E digo mais: queijo suíço.
- E como os suíços levaram todo aquele queijo, lá longe no céu?
- Você por acaso sabe onde é a Suíça?
- Não, mas...
- Pois então! Os suíços são um povo alienígena, que nos dias de outrem...
- Pai, quem é esse tal de Outrem?
- Eu quis dizer que há muito tempo, eles tentaram dominar a terra. No entanto, falharam miseravelmente, e então...
- Pai, a Suíça não era um país?
- ...
- Pai?
- Quem foi que disse a você que a Suíça era um país?
- A mamãe... e disse mais, disse que era um país frio, e com montanhas, e com o melhor chocolate do mundo... e ela disse também que não é ela quem mente, e sim você.
- Sua mãe não disse nada de queijo suíço, disse? - odiava quando ela falava a verdade. Enquanto ele lá, tentando estimular a imaginação do garoto, talvez transformá-lo numa das forças criativas que irá dominar o sistema capitalista mundial, ela fazia o papel de boa mãe e contava a verdade pro garoto. E que história era aquela de que ele era mentiroso? O fato era que a verdade era muito mais sem graça que a imaginação.

- Não, pai, ela não disse nada sobre queijo suíço, mas...
- Pois então! O que sua mãe não sabe, e você deve jurar solenemente que...
- O que é solenemente, pai?
- É só jurar, meu filho. Bem, você deve jurar que não vai contar sob nenhuma tortura ou nenhuma chantagem que não vai contar nada do que será revelado aqui.
- E se ela me fizer cócegas?
- Você me chama e nós fazemos cócegas nela.
- E se ela me der chocolate suíço?
- Você inventa uma história e come o chocolate.
- E se ela me der coca-cola?
- Você inventa outra história, pega a coca-cola e vem dividir com o seu pai.
- E se vocês estiverem no quatro, trancados, fazendo aqueles barulhos estranhos e...
- Você vai pra frente da TV ver Procurando Nemo.
- Tá bom! - o sorriso quase reluzia no rosto do garoto.
- Mas... do que eu estava falando mesmo?
- Acho que era sobre os cruzadores espaciais dos Rebeldes e a Estrela da Morte do Império...

segunda-feira, maio 14, 2007

Os Donos do Mundo



"Tu peux, si tu veux"




O quarto recebeu uma boa dosagem de veneno para insetos. As janelas e portas foram fechadas. Quem sabe assim eu me livraria da quantidade monstruosa de mosquitos que me atormentam nas noites úmidas e chuvosas do inverno.
Depois de uma hora, voltei ao quarto e acendi a luz. Ótimo! Alguns mosquitos mortos no chão, uma aranha e um besourinho. Primeiro pensamento: até que enfim, uma noite de paz! Dormir sem zumbidos incômodos no ouvido e acordar sem milhares de picadas coçando. Aí pensei no lugar em que fui me enfiar; um lugar onde preciso lutar contra insetos quase todo dia.

Já ia desforrar a cama para dormir, quando vi uma coisinha marrom cruzando o chão do quarto. Uma barata! Uma maldita barata!Corri para pegar o inseticida e um chinelo. Depois de “embebedar” a barata, consegui matá-la. Ou acho que consegui. Por via das dúvidas, deixei o chinelo em cima dela, afinal, nunca se sabe se ela foi esmagada o suficiente.

Baratas são um inferno! Não morrem com qualquer inseticida, são capazes de viver sem cabeça até que a fome as mate e é necessário esmagá-las umas três vezes para ter certeza de que realmente morreram.

Uma vistoria no ambiente me garantiu que só havia aquela barata. E nada de mosquitos ou aranhas ou... O besouro se mexeu! Ele não deveria estar morto? Vai ver é mais um daqueles insetos viciados. Os inseticidas estão se transformando no álcool deles. Na cocaína, talvez. Nada de chinelo, um tamanco vai garantir minha segurança com mais eficiência.

Nada mais balançou as patinhas nojentas. Imaginei que pudesse dormir em paz, finalmente. Até ouvir um zumbido. Um mosquitinho. Não, dois. Eles estão chegando! Poderia colocar mais inseticida no quarto, mas estou com muito sono. Realmente preciso dormir.


O jeito é ligar os dois ventiladores, me cobrir dos pés à cabeça e esperar que, ao menos por uma noite, o repelente de insetos cumpra sua função.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Festa Estranha, com Gente Esquisita





As hard as diamonds.




Aquela tinha tudo para ser uma noite normal. Sabe, tudo mesmo. A lua estava no céu, naquele estágio que ninguém consegue dizer se está cheia ou não, mas que todos sabem que ela não está; as estrelas ali também, mas aparecendo só de vez em quando - o que me leva a perguntar por que as estrelas se escondem da gente, mas acho que isso não vem ao caso. Não tem nada a ver com a história.

O fato é que aquela deveria ter sido uma noite normal. Sim, normabilíssima. Dessas que você chega em casa do trabalho, tira os sapatos, fica andando de meia pela casa e ouvindo sua esposa reclamar do lamentável gosto musical da vizinha que não pára de ouvir: "É na sola da bota, é na palma da mão... bote um sorriso na cara e mande embora a solidão...", e dizer que não agüenta mais isso, e que quer se mudar dali. E então, você, ignorando de uma maneira carinhosa, "sim, querida, eu concordo. Mas não podemos nos mudar agora, você sabe", se senta na frente da tv e assiste o jornal, falando da conjuntura política do país, que nunca muda. Uma noite bem normal, não concorda?

Bem, eu estava voltando no meu carro - um carro modesto, mas bem conservado, que funciona bem a maior parte do tempo. Isso porque eu sou um cara cuidadoso, que prefiro cuidar sempre do carro a deixá-lo por aí, sabe? Justamente para ele não quebrar nos piores momentos. Como aconteceu naquela noite.

O pior é que eu resolvera fazer um trajeto diferente. Estava justamente numa rua que eu achava que já havia passado por algum momento da minha curta vida, mas algo dentro de mim dizia que eu estava perdido. Eu devia confiar mais nessas coisas de intuição masculina.

A rua era escura, daquelas que tem um monte de postes de iluminação, mas cujas lâmpadas só funcionam ocasionalmente, seguindo provavelmente uma complicada relação entre a posição astral e a tabela de marés, resultando que elas raramente funcionam. E claro, não iriam funcionar quando eu estivesse ali.

Liguei os faróis, peguei o triângulo de sinalização, conforme todas as leis do trânsito. E só pra previnir, liguei também aquelas luzes que sempre ficam piscando, e que eu nunca aprendi o nome. Peguei o celular e disquei o número que estava no adesivo colado no porta-luvas, que era do reboque. Estariam chegando em vinte minutos.

Me tranqüilizei, e fiquei dentro do carro, com a porta aberta, e um pé no asfalto ainda quente àquela hora da noite. Engraçado, aquela rua não era movimentada. Por que diabos o asfalto estaria quente num horário onde até fazia um ventinho frio?, me peguei comentando com os meus botões.

Não, os meus botões não me responderam. Mas o susto que eu tomei foi equivalente.

- Bem, por quais diabos eu não sei, mas esse lugar sempre foi esquisito. Asmodeus, muito prazer.

Ainda olhei para os botões da minha camisa, pensando que eles poderiam ter me respondido, e então eu realmente estaria louco. Mas então notei que um destinto senhor estava parado do lado de fora do meu carro, estendendo uma mão com unhas esquisitas, e usando roupas que pareciam ter saído de um guarda-roupa do século XIV.

Me apresentei, ele retirou um cigarro do bolso e me ofereceu num gesto silencioso. Engraçado, nunca fumei, mas naquele momento senti uma vontade enorme de experimentar. Peguei o cigarro entre os dedos - daquele jeito que eu sempre vi nos filmes e achava tão estiloso - e ele prontamente acendeu um daqueles esqueiros prateados, que devem custar uma nota.

- O que houve com o carro?
- Hum, não sei. Apenas *cof cof cof* quebrou sozinho. Liguei pro reboque, acho *cof cof* que estarão chegando *cof cof* em breve.
- Nunca fumou antes?
- Bem, não realmente. Mas é... agradável.

O sujeito sorriu de um jeito quase imperceptível. E então eu consegui notar que o lugar inteiro estava mudando. O céu - se é que eu poderia chamá-lo assim - começou a mudar de tom, chegando a um vermelho que parecia ter saído de um daqueles filmes de terror de baixo orçamento. As tintas das paredes caíram de repente, e tudo parecia cheirar a tétano.

- Bem parecido com um filme que eu vi recentemente...
- É. Eles fizeram uma pesquisa de campo.
- Você está me dizendo que... Ah, bem, você só pode estar brincando, não é?
- Claro - uma pausa, que quase me tranqüilizou. - que não. Vamos, ligue o carro. Vamos fazer um tour pelo meu lar. Mas conhecido como Inferno.

Algo me dizia que se eu não ligasse logo o carro, ia acabar carbonizado como um pássaro que acabava de cair na estrada, com um grunhido alto e agudo. Esperei que entrasse no carro e girei a chave. Funcionou perfeitamente.

E lá estava eu, andando pelas ruas de um asfalto perfeito, apesar de um tanto quentes demais. No toca-fitas que já não funcionava tinha uns meses, tocava algo que parecia pop dos anos 80. Eu sempre achei que aquilo era coisa do demônio mesmo.

- Hum, eu achava que os buracos no asfalto eram coisa... de vocês. - falei, tentando quebrar o silêncio.
- Não, não somos nós que fazemos chover. Além do quê, é muito mais tentador uma pista em linha reta com um asfalto perfeito, não? Sim, sim. Os rachas foram inventados por nós.
- Hum, faz sentido... Mas... por que me trouxe aqui?
- Porque você foi o azarado de estar no meu perímetro quando eu estava passando por perto.
- Ah... Que sorte. - pausa. - Hum, mas eu vou voltar?
- Ainda não sei. Apenas continue dirigindo.

Eu podia saltar do carro. Mas com certeza não saberia fugir daquele lugar. Minha esposa devia estar muito brava comigo, pois completávamos... quantos anos de casamento mesmo? Ou era o aniversário dela? Bem, não importa. Ela realmente ficaria muito brava comigo. E minha esposa brava com certeza era pior que qualquer outro demônio.

- Bem, sabe, é que eu tenho compromissos... sabe, minha esposa. Bem, é uma data especial, e nós íamos sair para jantar... e...
- Ah, claro. Sexo. Bem, essa invenção não é nossa, mas certamente foi uma bela idéia deles. Eu entendo. Bem, você pode voltar aqui outro dia. E provavelmente será para todo o sempre. Então, terá muito tempo para conhecer tudo aqui.

E então o cenário mudou com a mesma rapidez. Estava na mesma rua escura e esquisita, e minha carona já não estava no carro. Mas as notas de "Jones, Jones, come doctor Jones, doctor Jones, doctor Jones wake up now..." ainda soavam na minha cabeça.

O carro funcionou e eu voltei pra casa. E não precisei pagar o reboque.

- Querido, que cheiro esquisito é esse na sua camisa? Parece enxofre...

  1. Isso é uma velharia, logo, uma republicação, embora nunca tenha aparecido aqui no Membrana. A questão é que Allana queria estar com humor e cabeça para escrever um texto digno de comemorar as 100 postagens do blog, mas não está com o mínimo humor/inspiração para isso. E como esse é um texto relativamente bom, e relativamente engraçado, então merece relativamente estar nesta ocasião tão especial para o blog.
  2. Allana queria saber fazer aquelas notas bonitinhas que Fernanda faz, mas não é uma blogueira profissional e a dita cuja não se encontra disponível para ensinar-lhe.
  3. Allana acha muito estranho falar de si mesma em terceira pessoa.
  4. 100 posts na Membrana que de Seletiva não tem nada! A equipe Membrana está preparando algumas surpresas, mas aparentemente só preparando mesmo. Sem previsão de quando vão ficar prontas.