sábado, março 31, 2007

A Batalha das Termópilas



"Pra sempre é pra sempre."




Aparentemente todo mundo nesse blog saiu empolgado com "300 de Esparta". Allana já fez uma resenha, inclusive. Não que vocês escapem de uma segunda, dessa vez escrita por mim. No entanto, como tenho sérias intenções de ver o filme de novo para submetê-lo à maior analise e ir atrás das resenhas e do "cri-cri"que o Irã fez, pra poder fazer algo diferente do texto anterior, deixarei isso para amanhã.

Hoje, de besta e metida (e metida a besta) que sou, vou falar algo sobre a Batalha das Termópilas enquanto assisto aula de webprogramação na SOS Computadores.

Não que vá fazer diferença alguma no texto o fato de eu estar assistindo aula, ele apenas vai demorar mais pra ficar pronto.

Ou talvez faça diferença. Pote bater uma loucura em mim e eu resolver registrar algo aqui. Enfim... deixa eu começar logo com isso.

A Batalha das Termópilas também é conhecida como II Guerra Médica (ou Medo-Pérsica), que ocorreu entre a Pérsia de Xerxes e os helenos. A primeira ocorreu quando Dário, pai de Xerxes estava no poder. Ele iniciou uma missão diplomática, exigindo que as Cidades-Estado da Hélade se submetessem ao seu poder e só duas delas cederam e enviaram amostras de água e terra, como sinal de submissão: Macedônia e Tessália.

Se as cidades gregas não se renderiam por bem, então Dário faria com que se rendessem por mal. O imperador (sim, porque a Pérsia, a essa altura, tinha o mais vasto império do qual se tinha notícia até então) desembarca em Maratona, crente que ia dominar a Grécia agora e... é derrotado pelos exércitos combinados de hoplitas, atenienses e plateenses. E sem Esparta nem se meter no meio, pois alegou "motivos religiosos" e os melhores guerreiros helenicos ficaram em casa.

Guerras Médicas: Hélade 1 vs. 0 Pérsia

Xerxes sobe ao trono, em 485 a.C., e o gostinho da derrota nunca abandonou sua boca (apesar de ter sido uma derrota de seu pai). Fomentado por Mardônio, o supremo comandante dos exércitos, o desejo de vingança de Xerxes crescia cada vez mais. Só que ele não era besta nem nada, então começou a organizar tudo nos mais ínfimos detalhes.

As Cidades-Estado gregas (ou helênicas, whatever), que notaram a organização minuciosa do rei persa, deixaram suas divergências de lado e trataram de se organizar. Reuniram-se na conferência pan-helênica, no Istmo de Corinto. Apenar Argos não compareceu, porque tinha birra boba de criança buxuda com Esparta, além de colônias mais afastadas, provavelmente por acharem que não tinham nada com aquilo. Não estavam ameaçadas geograficamente, estavam longe pra dedéu (gírias antigas ruleiam - de vez em quando) e não se achavam militarmente preparadas. Enfim, sabe aquele ditado "muito ajuda quem não atrapalha"? Eles achavam legal e estavam seguindo-o.

Argos foi acusada de medismo, ou simpatizante dos Medos, que era como os gregos classificavam os persas e os povos que eles haviam conquistado.

O comando da liga formada pelos helenos (gregos) foi atribuída à Leônidas, rei de Esparta, potência na época; afinal era a cidade mais militarizada, desde bebês os homens eram condicionados a guerra. Eles Jám nasciam soldados, praticamente.

Começa então a II Guerra Médica, a Batalha das Termópilas, aquela dos 300 espartanos. Ao todo, foram 7.500 homens defendendo a Grécia. Quer números? Quer detalhes? Ok, a Wikipédia é capaz de nos fornecer isso:

"
Heródoto enumera, do lado grego, trezentos Espartanos, quinhentos hoplitas de Tegeia e outros quinhentos de Mantineia, cento e vinte de Orcómeno, mil da Arcádia, quatrocentos de Corinto, duzentos de Pilos e oitenta de Micenas (prefazendo estes o contingente do Peloponeso, num total de 3 100 homens); setecentos de Téspias, quatrocentos de Tebas, mil homens da Fócida, e ainda um número desconhecido (mas elevado) de Lócridos Opuntianos. Portanto, no mínimo, cinco mil e duzentos homens. É provável que a este número devamos acrescentar ainda os soldados auxiliares (muitas vezes não mencionados), o que levaria, segundo os especialistas, a fazer aumentar este contingente para cerca de 7 500 homens (ou, no máximo, 10 mil)."

Bom, é mais provável que Heródoto não seja confiável, porque ele só tinha 4 anos quando a batalha aconteceu e ele é meio exagerado.

Durante 4 dias, naquele terreno inóspito, Xerxes esperou que os gregos atacassem primeiro, mas como eles não demonstraram a mínima intenção de tomar a iniciativa, o próprio começou a batalha, enviando seus homens armados apenas com um escudo pequeno e lanças. Foram rechaçados pelos gregos.

Xerxes 0 vs. 1 Leônidas

Xerxes mandou que seus arqueiros atacassem (e uma das frases mais marcantes do filme, "Then we will fight in the shade", foi realmente proferida) e os gregos se protegeram com seus longos escudos. Nesse contexto, segundo Plutarco, a seguinte frase foi proferida por Leônidas: "Melhor, pois se os Medos taparem o Sol, combateremos à sombra". Heródoto diz que a frase é de um tal de Diecenes, um dos mais bravos guerreiros espartanos.

Xerxes 0 vs. 2 Leônidas (se bem que a frase deveria conferir mais um ponto)

Xerxes prometeu, ameaçou, ofertou e os gregos não cederam. Não tendo mais meios de evitar outras disputas, enviou seus 10.000 Imortais, comandados por Hidarnes. Os Imortais eram a elite do exército persa. Tinham esse nome devido ao fato de, assim que um guerreiro caia, era imediatamente substituido, mantendo a constante de 10.000 soldados.

Nem esses guerreiros conseguiram mover os gregos de suas posições e, nesse embate, Xerxes viu um de seus irmãos morrer.

Xerxes 0 vs. 3 Leônidas

Assim foi até o sexto dia, quando Xerxes ainda tentou enviar soldados para combater os gregos à noite, torcendo para que esses estivessem cansados (e foi derrotado mais uma vez)

Xerxes 0 vs. 4 Leônidas.

Nesse tempo, aparece Efialtes no acampamento persa. Efialtes cobre o rei de elogios e bajulações, chamando-o de Rei dos Reis, esperando obter alguma recompensa por mostrar um outro caminho pelo qual Xerxes poderia derrotar os gregos.

Havia um estreito que levaria direto para a retaguarda dos gregos, guardado pelos Fócios. Efialtes mostrou esse caminho e os Imortais seguiram por ele durante a noite. Os fócios não notaram a presença do exército até que era tarde demais. Os gregos estavam ameaçados.

Efialtes jamais recebeu sua recompensa e teve sua cabeça colocada à prêmio, pra deixar de ser besta.

Xerxes 1 vs. 4 Leônidas vs. -1 Efialtes

Leônidas dispensou o resto do exército grego, para que eles pudessem defender o resto do território e ficou ali, nas Termópilas, com seus 300 homens. Ele provavelmente não teve muito tempo para pensar na glória que alcançaria, apesar de ser esse seu objetivo, que ele definitivamente atingiu.

Nesse último ataque dos bárbaros (ou medos; ou persas), os Helenos (ou melhor, os Espartanos) enfrentaram seu inimigo com espadas, numa luta corpo-a-corpo; a morte mais honrada que um espartano poderia pedir.

No fim da batalha, Xerxes mandou que procurassem o corpo de Leônidas. Decaptou-o e empalou sua cabeça. Por esse feito, Leônidas perseguiu Xerxes durante toda a sua vida em seus sonhos. Tanto por haver profanado seu corpo como por não haver celebrado suas exéquias.

Xerxes vence a Batalha das Termópilas e vança na sua tentativa de conquistar a Hélade. Tentativa fracassada, pois ele perdeu a Batalha de Salamina e teve que voltar pra casa com o rabinho real entre as pernas.

This is Sparta!




"Preparem-se para a glória."




Interrompendo brevemente o meu projeto com a Eneida, mas é por uma boa causa. Uma causa excelente, na verdade. Pelo ideal da liberdade!

Faltam palavras, mesmo nas línguas mais afiadas, para descrever 300. Eu não li o quadrinho - ainda - e acho que foi um ótimo conselho que me deram. Se eu tivesse lido a revista dois dias antes de ver o filme, teria ido para o cinema com a mentalidade de estar vendo uma adaptação. Iria reclamar internamente do destaque que a rainha Gorgó ganha no filme, dentre várias outras coisas que não cabem nesse post.

Se eu tivesse lido o quadrinho antes, eu não teria gostado tanto. Ponto final.

Que Virgílio e Homero me perdoem, mas Frank Miller é fundamental. Nenhuma produção poética chega aos pés da poesia de 300, e eu imagino que o quadrinho não deva ser diferente. Afinal, o quadrinho não precisa agradar a um público maior, tampouco diminuir a censura. Além do mais, as cenas em movimento, a trilha sonora, e a companhia de uma fileira inteira de nerds usando óculos superam qualquer poema de mais de 1000 versos.

Os diálogos são excelentes - e os mais legais registrados por Heródoto - e os atores fazem jus. Gerard Butler, o rei Leônidas, deve estar rouco até agora. E claro, puxando a sardinha para o nosso lado, Rodrigo Santoro fez muito bem o que lhe coube. Apesar de não ser a sua voz original a de Xerxes, os gestos e olhares com os quais ele compôs o deus-rei deram uma boa mostra do talento dele. Pena que ele aparece pouco.

Mas qual o argumento da épica? Os 300 guerreiros espartanos. São eles quem devem ser cantados, apesar do célebre pedido de Leônidas. E isso o filme faz com excelência e estilo impecáveis, fazendo o público mais impressionável - ou seria simplesmente mais sensível, criativo e imaginativo? - se colocar no papel daqueles heróis que lutaram não pela vitória, pois sabiam que ela uma batalha perdida, mas pela glória e pelo desejo de liberdade. Antes um soldado morto que um escravo sobrevivente. Vale ressaltar ainda que 300 se baseia, em essência, no relato de Heródoto, primeiro historiador do mundo helênico, e de índole essencialmente literária.

No entanto, cabe perguntar: o que importa que seria impossível incontáveis milhões de soldades persas marcharem naquelas condições pelo estéril território grego? O que importa saber que não havia apenas 300 soldados, mas que uma aliança foi feita entre as cidades-estado e que Leônidas liderou, no mínimo, 7 mil homens na defesa suicida das Termópilas? Segundo o próprio Platão, a literatura tem utilidade na República ideal enquanto servir para formar cidadãos. E é muito mais encantador acreditar que 300 homens sem medo, liderados por Leônidas de Esparta, morreram para defender a liberdade de seu povo.

E claro, aqui vai o comentário cretino: 300 é a maior concentração de homens sarados e gostosos do cinema. Se as mocinhas não gostam de batalhas épicas, lanças trespassando corpos e outras coisas, vale a pena ver 300 soldados usando apenas tanguinhas e capas vermelhas.

Créditos da imagem de avatar: The Devil Dweller

quarta-feira, março 28, 2007

Inverno Rigoroso se Aproxima



"Pra sempre é pra sempre"




As previsões para o inverno desse anos são de ventos fortes e chuvas. É, chuva de água também, mas me referia à chuva de granizo. Provavelmente alguma estiagem ou neve. Provavelmente a cidade ficará coberta de neblina. E estará tão frio que nem o sol a pino do meio dia conseguirá dissipá-la completamente. Pessoas se perderão por aí. Já pensou?

Sim, estou falando de João Pessoa, a tal "cidade onde o sol nasce primeiro". Aquela mesmo, que fica ali, pertinho do Equador, longitude oeste 34º47'30" e latitude sul 7º09'28. Só sete graus de distância da linha imaginária. Já pensou?

Você não, mas minha imaginação voou longe na hora em que entrei numa loja de departamentos (que ninguém sabe que era a Riachuelo, porque não vou dizer) e me deparei com... luvas. Não, não eram luvas quaisquer. Eram luvas de lã, e lã grossa. Do lado, claro, cachecóis e gorros do mesmo material.

Aí eu me pergunto: por quê essa invenção, agora? Será que eles realmente prevêem um inverno rigoroso numa cidade aonde só com muita sorte conseguiremos atingir os 25ºC? Ou estão pensando nas pessoas que vão viajar?

Ah, é uma possibilidade! Que bonzinhos, que gentil da parte deles. Viu? Quam for pra Ushuaia esse ano não precisa se preocupar em comprar tudo lá. Pode sair daqui com luvinhas e cachecol para conhecer a Terra do Fogo. Só se lembrem de comprar uns casacos impermeáveis lá, tá?

Hm... Mas eles nunca fizeram isso. Nunca vi roupas de lã naquela loja antes. E, pensando bem, na outra loja de departamentos do shopping (também conhecida como C&A) não tem luvas e não espera uma nevasca em plena capital paraibana. No entanto, outras lojas do shopping esperam, no mínimo uma ventania.

Ainda é Março. O que aquela menina está fazendo com uma jaqueta? Bem, quem sabe tenha ido ao cinema. E aquela... de botas? Botas de camurça? Em pleno verão? Sério? Querida, o sol tá quente lá fora, são duas horas da tarde, tenha pena dos seus pés! Suas botas são lindas, estão absolutamente perdoadas para a noite, mesmo aqui. Mas para a noite!

Bem, preparem seus casacos forrados, luvas e gorros. O inverno será rigoroso. Ao menos é o que as lojas dizem, né?

Fernanda tem uma séria e perigosa paixão por botas e trench-coats. Perdoem-na.

Tema da quinzena: vetores. Seja lá o que isso queira dizer. Presumindo que seja "imagem vetorial ou vetorizada", aqui vai a desta autora.

quinta-feira, março 08, 2007

Eneida - Canto I





E uma mulher era o chefe da expedição.




A noite ia alta, as estrelas brilhavam no alto céu, e a frota de navios seguia seu caminho como previsto e ordenado pelos deuses. Previsto, porque os deuses sempre têm um oráculo duvidoso para tudo, e ordenado porque eram eles que mandavam naquela joça mesmo.

De repente, as nuvens se juntaram no céu e uma tempestade terrível abateu a frota. E era uma tempestade experiente aquela: usava de todos os efeitos especiais a seu alcance, como raios, trovões, ventos, ondas gigantes – adorava ondas gigantes; tinham todo um charme oriental. E além de experiente, estava dando tudo de si: queria ser promovida a tornado. E para isso era necessário mostrar serviço, ora pois!

Essa é a história de Enéias, vale salientar. Enéias, foragido de Tróia, se meteu mares adentro, e viveu uma jornada homérica. Na verdade, foi uma jornada virgílica, visto que Virgílio pegou tudo de bom (e de ruim) de Homero. Enéias, filho de Afrodite, ou melhor, Vênus, deveria seguir longa jornada até chegar à terra prometida das melhores pizzas do mundo, a Itália. Claro, foram os deuses que determinaram que ele deveria fazer isso. O porquê? Perguntasse a eles!

- Esse é o grande problema de ser o protagonista de uma epopéia – falava Enéias para o vento, enquanto tentava se manter de pé no seu navio. – Não bastando enfrentar monstros terríveis, descer ao Inferno e voltar de lá, ou lutar por dez anos numa guerra sem sentido, ainda tenho que aturar uma tempestade chata que vai me tirar do rumo de novo. Só espero que o cachê seja bom!

A Eneida é uma narrativa in media res. Ou, no bom e velho português, que começa com o bonde andando. Ou o navio, como preferir. Por isso cabe aqui uma pausa para o uso de uma técnica deveras comum na literatura: o flashback.

Há muito, muito, mas muuuuito tempo atrás, uma rancorosa deusa, ciumenta e possessiva, resolveu participar de um concurso de beleza. Esta deusa, Hera, ou melhor, Juno, resolveu competir com Atena, aliás, Minerva, e Vênus. O juiz desse concurso foi o primeiro mané que elas encontraram: um pastor bonitinho, meio magricela, troiano, chamado Páris. Como boas deusas gregas que são, aliás, romanas, partiram para a famosa técnica do suborno. Juno, esposa de Zeus, hã, bem, de Júpiter, ofereceu impérios e terras. Minerva, deusa sábia e guerreira, ofereceu ao jovem a invencibilidade em batalhas. Vênus, que não era boba nem nada, seguiu literalmente o dito popular “Meta os peito”: desnudou os seios e ofereceu a mortal mais bela do mundo – Helena. Páris, como homem, deu como vencedora a deusa seminua.

E bem, como o mundo já está cansado de ouvir, isso acarretou na Guerra de Tróia. Os troianos, claro, perderam, mas essa é outra parte da história. A questão é que Juno ainda não estava completamente satisfeita. Não bastava ter colocado a cidade abaixo, os templos destruídos, os soldados mortos, as mulheres feitas escravas. Não, ela queria mais: ela queria acabar com o sangue troiano, principalmente porque eles estavam destinados a destruírem sua terra preferida, Cartago. E usando seus encantos de deusa do casamento, bateu um pequeno papo com Éolo, deus menor dos ventos, e encomendou uma tempestade. Éolo, não querendo fazer feio com a esposa do patrão, acatou as ordens como qualquer deus menor faria.

Voltemos à nossa tempestade, que infelizmente não conseguiu sua tão sonhada promoção. Poseidon, aliás, Netuno, não gostou nada nada que deuses menores se intrometessem no seu território. O mar era dele, afinal de contas. Com seu tridente mágico +20 expulsou a tempestade e assegurou um porto seguro para Enéias, embora ele não tivesse a mínima idéia de onde estava.

Vênus, preocupada com o destino do filho, foi bater um papo com o chefe. Vestiu a saia mais curta, a blusa mais decotada, aquele perfume especial e marcou uma hora com o manda-chuva.

- Júpiter, sabe... você prometeu um reino para o meu filho, abundância e paz. Já não basta tudo que ele passou? Pobre rapaz, perdeu a mulher, o pai... por acaso esqueceu do que prometeu?

- Ah, mas isso você nem precisa se preocupar. Sim, Enéias terá um reino. E depois dele Iulo, que dará origem ao famoso Júlio! E será um reino grande, quase eterno. Sim, sim, eu... bem, só não sei muito bem quando isso poderá acontecer.

- Podemos negociar algo a mais... curto prazo?

Júpiter olhou para a deusa a sua frente. Seria um incesto. Não que ele fosse famoso por ter muita moral, mas ainda assim era um incesto. No entanto, seria um incesto muito bem aproveitado. Sim, sim, um belo de um incesto. Na verdade, seria incesto de acordo com a versão da lenda.

Incesto ou não, foi muito bem aproveitado.

Enquanto isso, no plano terreno, Enéias seguia por entre as terras desconhecidas. Eles já erguiam seus próprios muros, as mulheres vestiam púrpura. Sorte deles que já haviam realizado o sonho da casa própria! E nos muros dos templos pinturas com os acontecimentos da guerra de Tróia. Mal sabia ele que aquele lugar seria odiado por sua raça, dali a alguns milhares de anos à frente. Mal sabia ele que acabara de aportar em Cartago.

- É, Acestes. Todo mundo já sabe da guerra. Até parece que alguém resolveu escrever uma epopéia a respeito, e dramatizar isso em peças e peças. Às vezes é até bom ser famoso, não acha?

Depois de algumas boas horas, Vênus, recuperada da longa série de exercícios, recorre a seu filho mais novo, Cupido. Com as chantagens de mãe, diz que ele tomasse a forma de Iulo, filho de Enéias, e fizesse com que Dido, rainha de Cartago e que há muito não conhecia as coisas boas que o amor poderia trazer, se apaixonasse por Enéias. “Sempre é bom ter uma rainha apaixonada por protagonistas”, pensou. Não que ela duvidasse do destino, mas uma ajuda sempre é bem vinda.

E deu no que deu: Dido, ao vislumbrar o herói que chegara de tão longas terras, em jornada, o convida para um jantar. E não é preciso ler a Eneida para saber o que acontece agora: ela estende a conversa e pede que ele conte sobre a guerra. E Enéias, depois de um charminho necessário, se desata a falar.

E isso, nós deixamos para o próximo episódio.

domingo, fevereiro 25, 2007

Canção dos Dragões




A atividade enriquece mais que a prudência.




Atrás de mim, o céu se mostrava escuro, algumas estrelas ainda brilhavam. Já a minha frente, o azul clareava, passando do mais escuro ao início de um tom alaranjado, denunciando o nascer do sol por vir. A marca1 ardia, conforme o tecido roçava na pele queimada. Soltei um pouco mais a camisa surrada, e deixei o vento frio que se despedia da madrugada refrescar meu corpo cansado da estada em Argonessen.

Tanto o que fazer, e tanto o que pensar! A marca, a Profecia2, o que estamos prestes a fazer... tudo poderia acontecer daquele momento em diante. Respirei fundo, como se tentando trazer aquela aparente paz para o meu espírito. Aparente, porque eu sei muito bem do que está para acontecer – do que estamos tentando evitar. Os marcados pelos dragões, como nos chamam o povo de Seren, têm um papel a desempenhar, segundo diz a Profecia, embora ninguém saiba realmente o que ela diz. Imaginei se os próprios dragões sabiam muito mais do que os mortais.

E aquelas montanhas, colocadas ali como uma verdadeira defesa? Seriam elas produtos da natureza? Duvidei que não. Pareciam cair como luvas, afastando possíveis invasores indesejados da Terra dos Dragões. Elas se erguiam muito mais poderosas que qualquer muralha de Khorvaire, e ainda assim muito mais naturais que qualquer obra dos elfos.

Impossível de se confundir com a vastidão a minha frente, vi um ser enorme no pico de uma das montanhas que cercavam a ilha. Austero, ergueu o longo pescoço escamado, profundamente azul, e pareceu olhar ao redor. Tenho certeza que notou o navio - poderia até dizer que ele notou o meu olhar em sua direção, mas não tenho certeza. E com uma graciosidade que eu imaginava ser impossível para uma criatura daquele tamanho, ele alçou vôo, se perdendo no azul do céu.

E quase como se para continuar o espetáculo diante de mim, percebi outro dragão ganhar vôo. Se é que eu posso chamar aquele ondular ao vento de vôo. Seu corpo era longo, vagamente serpentino, e das suas costas as vértebras pareciam alongar-se. Entre os ossos sobressalentes, escamas de puro ouro líquido ondulavam no céu, com uma naturalidade e uma beleza nunca antes vistas. Não, ele não voava. Ele nadava em um céu que ganhava tons de dourado. Seria o sol, ou as escamas do dragão?

Em seu encontro veio outro ser tão ou mais majestoso. Sua pele também parecia banhada, mas dessa vez em pura prata. As formas eram perfeitas, graciosas, e por fim os dois se encontraram. Mas não pareciam sequer se tocar – rodopiavam entre si, ora descendo, ora subindo. E então, só então, pude ouvir: vozes estridentes, mas nem por isso menos belas. Eles estavam cantando. Eu estava ouvindo a Canção dos Dragões.

Logo outras vozes se juntaram ao coro, formando um conjunto de fazer inveja a mais afinada orquestra de Khorvaire3. Estou certa que nunca mais vou ouvir algo tão bonito assim. Tão bonito e tão triste. Eu não podia entender as palavras, mas aquilo já não mais importava. Eu podia sentir a força da canção reverberando nos meus ouvidos, chegando a minha alma. Cantavam por um dragão caído, lamentando seu fim. Tamanha era a tristeza daquela canção, tamanha era sua força, que senti meus olhos marejarem.

Em uma harmonia até então impensável para mim, o coro crescia, e aumentava, e ganhava poder. Junto com as notas inumanas, sentia a canção ganhando força, como se pelo poder do lamento daquelas poderosas criaturas, o companheiro caído pudesse ser trazido de volta. E por que não? Eles eram dragões! O mundo como conhecemos foi criado pelo poder da canção de apenas um deles, segundo contavam as lendas.

Lendas?

Por fim, a canção acabou. E eu já não podia mais vê-los. Olhei ao meu redor, e todos pareciam ocupados demais para terem percebido o que aconteceu. Como eles puderam não ver? Como eles puderam não ouvir? Todos ali, tão perto, e ainda assim tão absortos em suas preocupações mundanas que perderam uma oportunidade única em suas vidas. Será que aquilo não passou de um sonho meu? Algum tipo de delírio causado pela atmosfera milenar da misteriosa ilha de Argonessen4?

Bardos manipulam a canção, ou as palavras, para influenciarem uma pessoa sob sua vontade. Mas as lendas, as lendas contadas por esses mesmos bardos, falam do poder dos dragões. Falam que, com a força de uma canção, eles criaram o mundo. Os Dragões Ancestrais fizeram isso. E por que seus descendentes não poderiam manipular a terra, o ar? Por que não poderiam eles criar uma muralha natural de montanhas para protegerem seu lar? Por que não poderiam eles, pelo poder de sua canção, mudar o mundo?

E conforme o navio Dragonsong se afastava, Argonessen passava a ser apenas Argonessen: uma ilha cheia de mistérios e perigos, lar dos poderosos dragões.

Do diário de Tessa Besson, texto não datado.

Notas do Editor:
1.
A marca à qual se refere Tessa se trata de uma dragonmark, ou marca do dragão, como chamam alguns estudiosos. A maioria das marcas aparecem seguindo determinados padrões, e as pessoas marcadas se aglomeraram e formaram poderosas casas nobres, como a casa Lyrandar, com a marca da Tempestade, por exemplo. Tais marcas, que parecem com tatuagens, concedem determinados poderes ao seu portador. A marca que Tessa apresenta, contudo, é uma das chamadas Aberrant Dragonmarks. Suas formas não seguem nenhum padrão, muito menos os poderes concedidos aos portadores. Estudos revelam que indivíduos que nascem com tais marcas são concebidos da união de membros marcados de casas diferentes.

2. A Profecia mencionada por Tessa faz parte da crença dos Dragões, e do povo que os seguem, habitantes da ilha de Seren. Seren é uma pequena ilha situada a norte de Argonessen, em mares bem ao sul do continente. Nem mesmo os povos bárbaros de Seren sabem do que se trata A Profecia em si, portanto, não há muita informação a respeito. Mas aparentemente, segundo as lendas, cada ser tem um papel a cumprir, de acordo com a Profecia.

3. Khorvaire é o nome das terras do continente, no qual estão situadas as Cinco Nações.

4. Argonessen é a ilha onde habitam os dragões, idolatrados como totens pelos bárbaros de Seren. Não há muita informação a respeito, visto que poucas expedições voltaram de lá.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Festa Estranha, com Gente Esquisita





As hard as diamonds.




Aquela tinha tudo para ser uma noite normal. Sabe, tudo mesmo. A lua estava no céu, naquele estágio que ninguém consegue dizer se está cheia ou não, mas que todos sabem que ela não está; as estrelas ali também, mas aparecendo só de vez em quando - o que me leva a perguntar por que as estrelas se escondem da gente, mas acho que isso não vem ao caso. Não tem nada a ver com a história.

O fato é que aquela deveria ter sido uma noite normal. Sim, normabilíssima. Dessas que você chega em casa do trabalho, tira os sapatos, fica andando de meia pela casa e ouvindo sua esposa reclamar do lamentável gosto musical da vizinha que não pára de ouvir: "É na sola da bota, é na palma da mão... bote um sorriso na cara e mande embora a solidão...", e dizer que não agüenta mais isso, e que quer se mudar dali. E então, você, ignorando de uma maneira carinhosa, "sim, querida, eu concordo. Mas não podemos nos mudar agora, você sabe", se senta na frente da tv e assiste o jornal, falando da conjuntura política do país, que nunca muda. Uma noite bem normal, não concorda?

Bem, eu estava voltando no meu carro - um carro modesto, mas bem conservado, que funciona bem a maior parte do tempo. Isso porque eu sou um cara cuidadoso, que prefiro cuidar sempre do carro a deixá-lo por aí, sabe? Justamente para ele não quebrar nos piores momentos. Como aconteceu naquela noite.

O pior é que eu resolvera fazer um trajeto diferente. Estava justamente numa rua que eu achava que já havia passado por algum momento da minha curta vida, mas algo dentro de mim dizia que eu estava perdido. Eu devia confiar mais nessas coisas de intuição masculina.

A rua era escura, daquelas que tem um monte de postes de iluminação, mas cujas lâmpadas só funcionam ocasionalmente, seguindo provavelmente uma complicada relação entre a posição astral e a tabela de marés, resultando que elas raramente funcionam. E claro, não iriam funcionar quando eu estivesse ali.

Liguei os faróis, peguei o triângulo de sinalização, conforme todas as leis do trânsito. E só pra previnir, liguei também aquelas luzes que sempre ficam piscando, e que eu nunca aprendi o nome. Peguei o celular e disquei o número que estava no adesivo colado no porta-luvas, que era do reboque. Estariam chegando em vinte minutos.

Me tranqüilizei, e fiquei dentro do carro, com a porta aberta, e um pé no asfalto ainda quente àquela hora da noite. Engraçado, aquela rua não era movimentada. Por que diabos o asfalto estaria quente num horário onde até fazia um ventinho frio?, me peguei comentando com os meus botões.

Não, os meus botões não me responderam. Mas o susto que eu tomei foi equivalente.

- Bem, por quais diabos eu não sei, mas esse lugar sempre foi esquisito. Asmodeus, muito prazer.

Ainda olhei para os botões da minha camisa, pensando que eles poderiam ter me respondido, e então eu realmente estaria louco. Mas então notei que um destinto senhor estava parado do lado de fora do meu carro, estendendo uma mão com unhas esquisitas, e usando roupas que pareciam ter saído de um guarda-roupa do século XIV.

Me apresentei, ele retirou um cigarro do bolso e me ofereceu num gesto silencioso. Engraçado, nunca fumei, mas naquele momento senti uma vontade enorme de experimentar. Peguei o cigarro entre os dedos - daquele jeito que eu sempre vi nos filmes e achava tão estiloso - e ele prontamente acendeu um daqueles esqueiros prateados, que devem custar uma nota.

- O que houve com o carro?
- Hum, não sei. Apenas *cof cof cof* quebrou sozinho. Liguei pro reboque, acho *cof cof* que estarão chegando *cof cof* em breve.
- Nunca fumou antes?
- Bem, não realmente. Mas é... agradável.

O sujeito sorriu de um jeito quase imperceptível. E então eu consegui notar que o lugar inteiro estava mudando. O céu - se é que eu poderia chamá-lo assim - começou a mudar de tom, chegando a um vermelho que parecia ter saído de um daqueles filmes de terror de baixo orçamento. As tintas das paredes caíram de repente, e tudo parecia cheirar a tétano.

- Bem parecido com um filme que eu vi recentemente...
- É. Eles fizeram uma pesquisa de campo.
- Você está me dizendo que... Ah, bem, você só pode estar brincando, não é?
- Claro - uma pausa, que quase me tranqüilizou. - que não. Vamos, ligue o carro. Vamos fazer um tour pelo meu lar. Mas conhecido como Inferno.

Algo me dizia que se eu não ligasse logo o carro, ia acabar carbonizado como um pássaro que acabava de cair na estrada, com um grunhido alto e agudo. Esperei que entrasse no carro e girei a chave. Funcionou perfeitamente.

E lá estava eu, andando pelas ruas de um asfalto perfeito, apesar de um tanto quentes demais. No toca-fitas que já não funcionava tinha uns meses, tocava algo que parecia pop dos anos 80. Eu sempre achei que aquilo era coisa do demônio mesmo.

- Hum, eu achava que os buracos no asfalto eram coisa... de vocês. - falei, tentando quebrar o silêncio.
- Não, não somos nós que fazemos chover. Além do quê, é muito mais tentador uma pista em linha reta com um asfalto perfeito, não? Sim, sim. Os rachas foram inventados por nós.
- Hum, faz sentido... Mas... por que me trouxe aqui?
- Porque você foi o azarado de estar no meu perímetro quando eu estava passando por perto.
- Ah... Que sorte. - pausa. - Hum, mas eu vou voltar?
- Ainda não sei. Apenas continue dirigindo.

Eu podia saltar do carro. Mas com certeza não saberia fugir daquele lugar. Minha esposa devia estar muito brava comigo, pois completávamos... quantos anos de casamento mesmo? Ou era o aniversário dela? Bem, não importa. Ela realmente ficaria muito brava comigo. E minha esposa brava com certeza era pior que qualquer outro demônio.

- Bem, sabe, é que eu tenho compromissos... sabe, minha esposa. Bem, é uma data especial, e nós íamos sair para jantar... e...
- Ah, claro. Sexo. Bem, essa invenção não é nossa, mas certamente foi uma bela idéia deles. Eu entendo. Bem, você pode voltar aqui outro dia. E provavelmente será para todo o sempre. Então, terá muito tempo para conhecer tudo aqui.

E então o cenário mudou com a mesma rapidez. Estava na mesma rua escura e esquisita, e minha carona já não estava no carro. Mas as notas de "Jones, Jones, come doctor Jones, doctor Jones, doctor Jones wake up now..." ainda soavam na minha cabeça.

O carro funcionou e eu voltei pra casa. E não precisei pagar o reboque.

- Querido, que cheiro esquisito é esse na sua camisa? Parece enxofre...

  1. Isso é uma velharia, logo, uma republicação, embora nunca tenha aparecido aqui no Membrana. A questão é que Allana queria estar com humor e cabeça para escrever um texto digno de comemorar as 100 postagens do blog, mas não está com o mínimo humor/inspiração para isso. E como esse é um texto relativamente bom, e relativamente engraçado, então merece relativamente estar nesta ocasião tão especial para o blog.
  2. Allana queria saber fazer aquelas notas bonitinhas que Fernanda faz, mas não é uma blogueira profissional e a dita cuja não se encontra disponível para ensinar-lhe.
  3. Allana acha muito estranho falar de si mesma em terceira pessoa.
  4. 100 posts na Membrana que de Seletiva não tem nada! A equipe Membrana está preparando algumas surpresas, mas aparentemente só preparando mesmo. Sem previsão de quando vão ficar prontas.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

¹ Fofoca de Carnaval
² Um Vestido (uma bobagem para satisfazer a curiosidade de alguns)



"Sem braço, sem biscoito"




É Carnaval. Isso é evidente, pelas marchinhas tocando a cada esquinha, a espuma maldita nos carros estacionados nas ruas e os bêbados e motoristas loucos que já tomavam conta das ruas uma semana antes.

Esse ano eu ainda aproveitei algo. Fui para um bloco e uma festa. Cuidei de um bêbado e resolvi que estava bom. Mas para onde fugir do carnaval? Para o shopping, oras!

Lá fui eu e uma amiga, para o shopping, pensando em tomar sorvete, aproveitar o ar condicionado e xeretar as promoções. Sorvete tinha, ar condicionado também. Promoção nem se fala, eu acabei comprando meu vestido de casamento*. O grande problema é que muitas pessoas pensaram na mesmíssima coisa. E, claro, a trilha sonora era composta de marchinhas de carnaval.

Cansadas de ficar dentro do shopping, respirando ar seco e vendo gente perambular de um lado para o outro sem ouvir direito as conversas interessantes dos outros, decidimos sair do shopping e sentar num dos bancos próximos à entrada principal.

Lá estávamos nós, observando o movimento frenético de entrada e saída dos táxis até que chegam duas senhoras e duas crianças, as mulheres evidentemente brigando. Minha amiga nota e chama minha atenção. Uma das mulheres é, provavelmente, a avó das crianças. A outra devia ser a mãe. Não dá para entender muito da discussão, mas a mulher mais nova enfia a mais velha e as crianças dentro do táxi próximo a nós, gritando: "Eu fico com quem eu quiser". Ela falou isso pelo menos 3 vezes. O táxi partiu com seus 3 passageiros, a mulher, com seu vestido de sainha plissada cor-de-rosa, voltou para dentro do shopping.

Eu e minha amiga ficamos conjecturando como teria sido o resto da conversa, o que a mulher mais velha teria dito e o que havia desencadeado tal discussão. Além, claro, de um ou outro pensamento maldoso, do tipo "ela fica com quem fizer o favor de querer ficar com ela, porque pelamordedeus, ninguém merece".

Voltamos para o shopping, saímos meia hora depois, já com o intuito de irmos embora, quando a mulher do vestido rosa passa por nós, devidamente grudada num homem. Ela se posiciona ao lado de um dos bancos externos do shopping e os dois se beijam como um casal de adolescentes de 15 anos em plena Micaroa já abastecidos com uma certa quantia (talvez não muito saudável) de álcool. Pois bem, ela realmente ficou com quem queria. Ou com quem queria ficar com ela. Ainda tentei ver se ela era casada, para ver se era esse o motivo pelo qual ela e a avó das crianças brigavam, mas não tive como ver sua mãe esquerda.

Uma pena. Vocês vão ficar com a fofoca incompleta. Sei que fui embora e, ao localizar meu carro, deparei-me com uma grossa camada de espuma em todos os vidros do lado direito e em parte do vidro dianteiro. Isso me fez esquecer a vida alheia rapidinho.


* O vestido de casamento: certo dia, diante de certa loja de roupas indianas, deparei-me com um vestido belíssimo, branco, longo e muito simples, exceto por alguns bordados, também em branco. Estava com mais duas amigas e aproveitamos para entrar na loja e olhar o preço, além de dar uma olhada nas bijuterias.

O vestido era caro. Muito caro. Uma das amigas que estavam comigo disse que, se eu quisesse me casar com aquele vestido, aí sim valia a pena. Nesse momento eu olhei pra ela, para o vestido e cheguei à conclusão de que sim, me casaria usando aquele mesmo vestido. Inclusive viajei um pouco na história, já compondo os detalhes de como seria o casamento.

Não provei o vestido. Deixei-o lá e fui embora, com a certeza de que o comprariam ainda aquela semana.

Qual minha surpresa quando, duas semanas depois, entro na loja, com outra amiga e o vestido ainda está lá. Dessa vez, me fizeram provar o dito cujo. Pra quê? Pra tentar meu juízo, lógico, pois a roupa caiu tão bem quanto eu imaginava. Para minha felicidade, o preço tinha baixado e ainda havia um desconto em cima desse novo preço.

Fiz a aquisição do vestido do meu casamento de nuvens. Um vestido que provavelmente vou usar para ir a um restaurante ou uma festa numa noite quente. Melhor do que guardá-lo para um dia incerto, pois ninguém sabe se, no futuro, haverá o homem certo, a praia certa e o nascer-do-sol certo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Conhecendo o Desconhecido - I





As hard as diamonds.




Os confortáveis sapatos pisavam no concreto da calçada de um bairro sul de Chicago. Nicole se perdia em pensamentos enquanto planejava a sua tarde: deveria se encontrar com Mabel, aquela jovem-rica-mimada que conheceu na noite anterior, e depois estaria supostamente livre. Planejava ir no hospital, visitar o Matt. Gostava de fazer isso de vez em quando, apesar de duviddar que ele pudesse ouvir as coisas que falava. Bem, ao menos ele era um bom ouvinte - não a interrompia. E aquela agora, Mabel? Ela estava em um hospital a noite passada. Será que alguém importante estava muito mal? Com certeza essa pessoa não estava bem, pois não estaria num hospital, não é?

Conseguia ser tão idiota às vezes. Por que não era como as pessoas normais, que pensavam em coisas como "e o que eu vou fazer esse fim de semana?", ou "será que eu deixei o gás ligado?". Certamente seria um problema se tivesse esquecido o gás ligado...

Por que a rua estava tão deserta? Devia ser o horário.

Não demorou a avistar Mabel Yonker. Os cabelos loiros brilhavam no sol da tarde, e ela lhe dirigiu um olhar de reconhecimento, seguido de um aceno. Imaginou se ela era loira de verdade. A própria Nicole já havia sido ruiva antes, quando morava na França. Pena que não podia pagar mais luxos assim. Achava azul uma cor muito bonita.

- E então, tudo bem? - perguntou Mabel, levantando-se. Era uma moça bonita, pôde reparar.
- Tudo sim. Quer um pouco? - ofereceu o copo plástico com ovomaltine do Bob's. Quando percebeu o olhar de estranhamento, explicou. - Meu almoço.
- É por isso que você é tão magra...

Nicole ignorou o comentário, sem saber se levava como elogio. Pelo menos não fazia parte das estatísticas da população obesa americana.

- E então, onde ela está?
- Bem ali, dois quarteirões acima.
- Eu não vim sozinha. Dois amigos meus estão comigo, e um deles você conheceu ontem. É aquele que vem ali. O outro está fingindo ler um jornal ali do outro lado...

Mabel continuou a fala, enquanto Nic0le refazia mentalmente os passos da tarde anterior. Voltava para casa, no final da tarde. A rua estava movimentada ontem, lembrava. Por que é que estava tão deserta agora? Voltava para casa. Devia estar pensando em alguma coisa, pra variar, quando viu uma mulher sentada no chão, chorando. As pessoas passavam por ela como se não estivesse ali, como se simplesmente não existisse. Não existia mais uma fagulha de humanidade nessa gente?

Se aproximou dela, e então percebeu porque ninguém mais a notava. A pele estava completamente queimada, desfeita em boa parte do corpo. Pedaços inteiros de carne se desprendiam do corpo e se esvaeciam antes de cair no chão. O choro era compulsivo e tinha um somo inumano, gutural. Nicole não sabia o que fazer. Não estav com medo - não muito, pelo menos. Quando ver espíritos se torna algo comum e habitual, você passa a encarar isso de um modo natural. Quase como respirar, andar, e todas essas coisas. Quase.

- Senhora... você está bem? - que pergunta mais estúpida, Nicole. É claro que ela não está bem.
- Você... pode me ver? Você pode me ver?

De um modo rápido e com uma voz falha, ela contou o que aconteceu. Assassinada; seu carro foi carbonizado Era aquele ali no final da esquina. Era professora universitária, trabalhava numa pesquisa, e agora sua aluna corria perigo. Mabel, o nome dela. Mabel Yonker.

- Eles irão atrás dela também... faça ela parar... faça ela parar! Diga a ela, diga que pare! - a mulher parou um pouco, tentando pensar. - Se ela parar... eu posso ir embora?
- Eu... espero que sim.

- O que disse, Nicole? - a voz de Mabel a fez voltar à realidade.
- Hã? Não, nada. Pensei alto. Você tem certeza de que... pode vê-la também?
- Não se preocupe com isso. Eu posso. Mas o que ela havia dito-
- Esperem. - falou o homem de meia-idade, cujo nome ela descobriu ser Simon. - Há algo... estranho nesse lugar. Vocês não podem sentir?

quarta-feira, fevereiro 14, 2007





As pessoas são egocêntricas, instáveis, egoístas. Ame-as apesar de tudo.





Na aula de direito civil ando aprendendo sobre o casamento, divórcio, partilha de bens.

Está tão fácil "contrair matrimônios" atualmente, se não se levar em conta o processo de habilitação, o planejamento da festa, o pagamento da celebração, a lista de convidados e o fato de quase nada sair como o planejado; acho que é a tal banalização do amor e sexo de que tanto falam.

Não sou a pessoa mais tradicional do mundo, mas acho que certos passos da vida deveriam ser, ao menos, melhor refletidos antes de serem dados.

Casamento não é um contrato bilateral com cláusula de arrependimento, não se deve simplesmente dizer: Se fulano de tal apresentar intolerância as minhas saídas noturnas de quarta num prazo de 1 ano a "obrigação matrimonial" estará dissolvida. Casamento não envolve apenas marido e mulher (ou mulher e mulher, ou homem e homem), casamento envolve família, envolve filhos, envolve perspectivas e sonhos.

Comumente escuto pessoas perguntarem: Quantos filhos você tem? Todos do mesmo casamento? É seu primeiro marido?

Não estou dizendo que as pessoas não têm o direito de se arrependerem, não estou dizendo que elas têm que ficar "até que a morte os separe" com alguém que não serve nem como vizinho de apartamento...o que estou dizendo é que algumas pessoas hoje encaram o casamento como um simples: vou testar, se não der certo não deu.

Acho que existem muitas outras formas de se "testar", como dividir um apartamento antes e ver se estão realmente prontos para convivência diária, para acordar e dar bom dia a uma pessoa possivelmente descabelada e com hálito duvidoso. Para fazer concessões sem abdicar de sua individualidade. [parece paradoxal escrito desta forma]

Disseram-me uma vez: se viver é difícil, conviver é o diabo.

Por quê fazer toda uma solenidade, se ater a mil trâmites burocráticos, deixar a família envolvida "até o pescoço"?

Qual seria a questão? Falta maturidade? Sobra paixão? Ou é a famosa banalização do amor e sexo sobre a qual tanto falam?

Sonho de Valsa: Uma Campanha Publicitária que deu Certo



"Sem braço, sem biscoito"




Eu juro como não entendo a atração por essa coisa. Eles conseguiram fazer uma massa de gordura hidrogenada com castanha falsa ficar enjoada, cobriram com um waffle e jogaram um chocolate ao leite um pouco doce demais por cima.

Pra início de conversa, eles começaram a vender para mulheres, em bombonières, e vendiam no peso. Era uma embalagem vermelha estranha, com o nome escrito num selo preto e uma imagem de um violão na frente. Os homens não compravam, era chocolate de mulher.

Passado algum tempo, eles aumentaram ligeiramente o tamanho do chocolate e passaram a vender por unidade. Os homens começaram a comprar, afinal de contas, a empresa vendia uma imagem "apaixonadinha" do chocolate, diziam que era demonstração de amor, colocaram um casal dançando valsa na frente e pronto. Quer coisa melhor? Ao invés de comprar belas caixas de chocolates finos e variados pras namoradas, os rapazes compravam um punhado de bombons e davam de presente, com uma conversa frouxa qualquer e as mulheres achavam lindo.

Nada contra querer economizar um pouco, mas vêem? O que estava se vendendo não era uma imitação barata de chocolate, era uma idéia. Era o tal amor ideal, o romance... É fácil embalar isso, não?

Passado mais algum tempo, o tamanho do bombom diminui novamente (e o preço aumenta). Eles inventam um tal de Sonho de Valsa branco e outro com recheio de morango (desses eu tenho até medo).

Desde que surgiu até os dias de hoje, essa coisinha ruim numa embalagem rosa bem-feita (isso eu admito) tem crescido muito. Acho que aí fica comprovado o poder do marketing e o quão influenciáveis as pessoas são. Mulher principalmente, apesar das mulheres de hoje serem mais inteligentes e incrivelmente menos bestas do que no início/meio do século XX.

Não considero esse bombom um chocolate. Chocolate é algo bom, muito bom, e... bom... o Sonho de Valsa tá ali, do lado da beringela. Fazer o quê, não é mesmo? Mas ainda assim acho fantástico como uma campanha publicitária bem-feita faz um produto decolar, seja ele bom ou não.

Quanto àqueles que gostam do bombom, o que posso fazer? Tem gosto pra tudo nesse mundo, não é mesmo? Nada é perfeito. E, depois, cada um tem que ter seus defeitos. Tem gente que gosta de música ruim, tem gente que gosta de bebida ruim, tem gente que gosta do chocolate ruim.



Esse texto é um daqueles que não devem ser levados tão a sério. Se eu acho o bombom ruim? Acho. Eles fizeram uma boa jogada publicitária para vender o produto? Fizeram. Mas nem venha me dizer que tenho algo contra quem gosta do bombom! =p

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Coisas Que Não Se Diz Num Blog



"Love is just a game."




Não se diz num blog, por exemplo, que já morou um marginal mirim na casa vizinha à sua. Vai que ele descobre o blog e lê? Muito menos se diz que ele, com seus tenros 9 anos de idade, invadiu sua festinha de aniversário (sim, a sua, não a dele... ¬¬), jogou areia nas mesas e deu um murro na sua avó.

Não se diz num blog que você já perdeu amizades por ter dado a impressão de estar flertando com a pessoa, ela interpretar errado, você explicar que estava apenas sendo legal e simpática e ela ficar com raiva. Também não se diz o contrário, que você passou por antipática para não dar a impressão de estar dando mole e deixou de fazer uma amizade que teria sido legal.

Não se fala assim pra todo mundo que você tem segredos inconfessáveis. Sabe-se lá o que esse povo pode pensar! Seu segredo inconfessável pode ser apenas um certo amor por cobras ou um leve vício em chocolate. Ou endorfina. Ou que você filou naquela prova e, por ser "caxias" demais, sente culpa até hoje.

Não se diz abertamente que odeia Sonho de Valsa e que aquilo não pode nem ser classificado como chocolate, além de ser uma das coisas mais enjoadas que você já provou. Bom, eu digo. Mas claro que eu vivo num mundo à parte e acredito piamente que os amantes dessa porcaria não vão me apedrejar na rua.

Nem pensar em contar que, quando criança, você ajudava sua mãe a fazer aqueles biscoitinhos gostosos no dia da visita das suas tias-avós e avós. Isso porque sua mão era pequenina e você derrubava a massa dos biscoitos no chão, recolhia antes que alguém visse e jogava na assadeira, pra sua mãe colocar no forno. Claro que o calor matava os "germes", mas para as pobres e amáveis velhinhas, os germes eram aliens assassinos microscópicos que queriam acabar com a Terra.

Deosmelivreguarde de você abrir sua boquinha pra falar mal de fanáticos religiosos. Eles podem te seqüestrar, seqüestrar seu cachorro, explodir sua casa ou pior: tentar te converter. Imagina só! Extremistas são um perigo!

Blog é um troço tão público, mas tão público que acho que até aquele professor da universidade que deu duas aulas, sumiu e aplicou aquela prova que só merece uma classe de adjetivos, os quais não vou publicar aqui, porque isso é um blog de família, até esse professor acha seu blog, lê e pior: lembra da sua carinha e baixa ainda mais sua notinha se ele achar uma linhazinha sobre ele que ele não ache tão legal assim.

Blog é também uma das ferramenteas mais divertidas da internet. E é também um bom meio de falar um monte de besteiras, dizer que é literatura ou qualquer troço parecido e ninguém nunca vai saber o que é verdade e o que não é.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Ok, I Believe!



"Love is just a game."




Há mais ou menos um mês fiz meu cadastro no Personare, um site de horóscopo personalizado. Bem interessante, ele. Manda pro seu e-mail as previsões de acordo com as mínimas mudanças nos planejtas. Inclusive meu "Marte natal" fez aniversário essa semana. Como pode ter sido, tão longe do meu próprio aniversário, eu não sei, mas quem sou eu pra discordar?

Sendo eu uma criatura meio cética, não acreditava em horóscopo e essas coisas, pelo menos não completamente. Sempre gostei, achei muito divertido, mas acreditar de verdade verdadeira, não.

Até os últimos dias pelo menos.

Chegou um e-mail me avisando que eu teria que escolher entre o lado profissional e o emocional/afetivo. No dia seguinte sou contratada para trabalhar como fotógrafa e uma das primeiras coisas que me dizem é: "Tenha paciência, porque os caras vão dar em cima de você, e muito". Aí eu penso: "Ok, tem alguma relação com meus horóscopo. Nenhum cara com quem eu me envolvese emocionalmente gostaria muito dessa história."

Pouco depois vem um e-mail falando que vou estar mais atraente e, de repente, todas as criaturas que esbarram em mim num dos corredores de um dos 500 cursos que faço lembram do meu rosto quando me encontram em outro lugar.

Também aconteceu de eu levar algumas cantadas ou de alguém parar para me olhar direito, mas isso não vem ao caso, porque o que é realmente importante vem a seguir.

O Personare me avisa que vou estar mais extrovertida, animada e saindo mais (confere exatamente com a semana passada), mas que ainda assim eu me mantivesse no posto de observadora, porque nessa época, por mais que eu gostasse de falar, "falar é prata, calar é ouro".

O mais divertido é que isso deve ser realmente importante. Acho que os planetinhas lá em cima se reuniram, chamaram meu ascendente e minha Lua natal e concordaram que eu devia ficar quieta, porque jogaram alguma coisa e, do nada, infecção na garganta. Claro que não foi uma infecção normal. Qual seria a graça? Foi daquelas para arrasar de vez com a garganta, tanto que já estou há 3 dias sem voz.

Ok. Eu acredito. I believe.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Mudanças Canceladas





Love is just a game



Migramos para o novo blogger! Vocês talvez não sintam a diferença, mas é fato. Uma das mudanças é que agora nos temos tags, o que facilita a busca de textos do mesmo gênero dentro do Membrana (assim espero, eu não testei).

Por uma maioria esmagadora, nós não vamos abrir novas sessões pra falar de livros, filmes e o escambáu. Vamos fazer as resenhas aqui mesmo.

(Agora as pessoas que votaram naquela opção gritam "ÊÊÊÊÊÊ!!!!" e quem votou contra faz "aaahhhhh...". Quem disse que não tava nem aí pras resenhas, bom... f*da-s*.)

Só que qual a diferença? Bom, haveria ao menos uma resenha por semana, agora vai haver quando a divina luz do espírito santo baixar sobre uma de nossas 3 cabeças. O que, acredite, é difícil acontecer. No caso de Allana, vai depender da boa vontade e da empolgação dela com o livro. No caso de Deny, idem, mas em relação aos filmes. E no meu caso... bom... como eu sou horrivelmente preguiçosa, vai ser no dia em que eu quebrar a perna e passar o tempo todo em casa, aí eu vou ter que escrever outras coisas além de contos, crônicas e opiniões esquisitas sobre o trânsito e a vida alheia para ocupar meu tempo.

Claro que, se a cara do Membrana é não fazer sentido, bom... No pé que anda o único sentido que esse blog vai fazer é o tema dos avatares que muda a cada 15 dias! ;)

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Hips don't lie, do they?






Como fazer Deus rir? Conte a ele seus planos futuros.







Hoje, sei lá por que raios, eu acordei com o novo hit da Shakira tocando na cabeça. Acho que tive algum sonho escuso com o rebolado dela, ou algo assim. "Oh baby, when you talk like that/ You make a woman go mad/ So be wise and keep up reading the signs of my body/ Oh, my hips don't lie..."

Bem, voltando ao texto. Acordei com a música na cabeça e estranhamente me sentindo... bem. Feliz. Apesar de ter acordado com dor de cabeça. Como diz uma amiga minha, "Allana tem dores de cabeça tanto quanto eu tenho vontade de ir no banheiro". Prosseguindo, fiquei o resto do dia cantarolando a música (na verdade, apenas o refrão, que é só o que eu sei) e meu namorado resolveu tocar no assunto: "Incrível como a música hoje em dia fala só de sexo".

Sim, porque, afinal, Hips don't lie é praticamente nigga music. E começamos a tomar nota da decadência da música pop: Nelly Furtado, que aparecia no vídeo em um belo campo verdejante cantando "I'm like a bird that only fly away" hoje se passa por uma "Promiscous Girl". A própria Shakira, que cantava não tão inocente "Estoy aqui, querendo-te" já fala dos sinais que o quadril dela dá. Meu exemplo maior, contudo, é Britney Spears.

Joguem as pedras que quiser, mas eu acho que não tem nada melhor de ouvir pra uma garota de 13 anos baladinhas como "Sometimes I run/ sometimes I hide/ Sometimes I'm scared of you/ But all I need is only hold you thight/ Treat you right/ Be qith you day and night/ Baby all I nedd this time", e coisinhas bonitinhas como "I was born to make you happy".

Sim, eu tinha o primeiro CD da Britney, e se surpreendam, alguém roubou ele de mim. Ou eu emprestei e esqueci de pegar de volta. E cheguei a comprar o segundo, apesar de não ter gostado muito. Mas ainda me lembro de outras letras, como "Oops, I did it again/ I played with your heart/ Got lost in this game, oh baby". E... bem, hoje ela rebola uma bunda que não tem, exibe uns 500ml de silicone e se acha a dona do mundo. É a vida...

E eu ainda poderia citar Christina Aguilera, embora eu sempre defendi que ela fosse uma vadia, mas com níveis diferentes de vadiagem. Veja bem, no mesmo álbum que temos coisas como "Who is that girl I see/ Staring a strange back at me?/ When will be my reflection show?/ Who I am inside?" (tema do primeiro Mulan, da Disney, vale salientar) nós temos a famosa "Baby, se quiser ficar comigo/ Há um preço a se pagar/ Sou um gênio numa garrafa/ Do jeito certo você tem que me esfregar*". Bem, essa não é das posturas mais... inocentes, hã?

E a MTV ainda diz que ela está retomando suas influências do jazz... difícil de engolir, hã?


* Tradução livre do primeiro hit da vad... er, cantora em questão: "If you wanna be with me/ Baby, there's a price to pay/ I'm a gennie in a bottle/ You gotta rub me for right way".

Notícia de Jornal





Love is just a game



Era um lugarzinho pacato, não muito violento ou badalado. De fato, a maior novidade girava em torno de um grupo de jovens que se hospedavam numa das pousadas dali. Aparentemente, eles descobriram um lugar ótimo para fazer “turismo radical” nos limites da cidade. A área era realmente bonita e propicia para tal atividade. Tinha morros, quedas d’água, ficava próxima da mata. Tudo o que os visitantes queriam.

No entanto, o jornal local se cansara disso. Seus leitores não escalavam pedras, pulavam de pontes nem faziam trilhas na floresta. As notícias e informações sobre o que aquele grupo fazia ali já não atraía os habitantes da cidade. O redator-chefe também não agüentava mais publicar sobre enterros, casamentos e batizados. Seu jornal precisava de ação, emoção, talvez de sangue. Será que não havia um caso de adultério seguido de homicídio? Quem sabe um jovem drogado agredindo os transeuntes?

- Desculpe, senhor, mas o máximo que aconteceu foi uma briga entre dois vagabundos – Disse um jornalista, com voz cansada.

- E o que aconteceu?

- Nada demais. Só um olho roxo.

- Então, a notícia terá que ser criada. – Resolveu o redator-chefe, com um brilho estranho nos olhos.

No dia seguinte, a notícia lida pelos moradores da pequena cidade continha medo, violência e sangue. Um mendigo matou outro com pauladas na cabeça. Disputa territorial, o agredido estava dormindo no banco da praça que “pertencia” ao outro. De quebra, ainda roubara a latinha de cola do agressor.

Fato parecido era realmente novidade por ali. Havia brigas, é claro. Tinha aquele senhor que era alcoólatra, outro que discutia toda noite com a mulher. Mas homicídio, drogas; aquilo assustou a população.

Os velhinhos, aterrorizados, pararam de conversar na calçada ao anoitecer. As mães passaram a super-proteger seus filhos. Os homens discutiam entre si, no intervalo dos jogos de futebol dominicais, sobre como as pequenas cidades haviam perdido a vantagem de serem seguras. Esse mundo estava perdido! Não havia mais segurança ali, então não havia segurança em lugar algum desse planeta!

E, naquele dia, o jornal vendeu. Vendeu como nunca!



* Reedição, ainda que nunca tenha sido publicado no Membrana. Fernanda está passando por um pequeno bloqueio criativo (ataque de estrelismo) e resolveu não publicar nada novo esses dias. A idéia de publicar justamente esse conto partiu do Rascunhos de uma Mente.

Black-Music-seiláoquê X Funk



Vermelho, vermelho cereja, vermelho morango, corselete vermelho, unhas vermelhas, lençóis de seda vermelhos, vermelho fogo, vermelho sangue, vermelho.



Certas pessoas “se jogam” na pista da boate ao som de músicas como “Don’t Cha” e “Buttons” de Pussycat Dolls, “My Humps” do Black Eyed Peas e “Candy Sop” do 50 Cent, mas saem correndo se o Dj quiser “brincar” e colocar nas pick-ups algo como “Boladona” da Taty Quebra Barraco ou “Vacilão” da Perla... “Ai eu odeio funk, as letras são fúteis e baixas...isso é coisa de pobre".

Será mais uma vez aquele famoso preconceito pelo que é “nosso”? Será que só porque a letra é cantada em inglês as pessoas acham legal?

Muitas dessas músicas pop/black-sei-lá-o-quê têm letras com o teor bem mais “incorreto”, “carregado”, “baixo” “vazio” e afins que o das cantadas nos bailes cariocas...

Tenho uma música eletrônica no meu computador que se chama “Dirty Mary” (“hello, my name is Dirty Mary, your horny secretary...I'll be whatever you want me to be... I can be a motherfuckkin' slut …”), e aí? Não deixa muito funk no “chinelo”?

Não sou amante do funk, nem vou dizer que gosto de ouvir músicas chamando mulheres de “cachorra” – mesmo que muitas façam por merecer o apelido carinhoso, mas gosto do ritmo, gosto de música eletrônica e gosto de black-music-seiláoquê...essas musiquinhas pop também me agradam e, pra falar a verdade, é difícil algum estilo me desagradar por completo...escuto forró, rock, metal, samba...o que for...depende do momento. O que vale é a diversão.

Então penso que uma pessoa que está numa festa se divertindo e fazendo “altas coreografias” ao som de “my hump, my hump, my hump, my hump” e do nada sai correndo pra sentar porque começou um “tá dominado, tá tudo dominado” e não pode ser vista dançando “essas coisas de baile funk de periferia” estará sendo um pouco hipócrita ou não sabe nada de inglês e acha que Black Eyed Peas falava sobre preservar a natureza...

- devaneios enquanto ouvia "n" músicas no mp4 que salva o tédio de uma manhã no estágio.
- sim, eu respeito quem não gosta de pop, música eletrônica, black music...espero que esteja claro pra que "gênero de gente" vai o post.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Rainy days

Como fazer Deus rir? Conte a ele seus planos futuros.

"Admirar um velho quadro é verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de lançá-la adiante pelos jatos violentos de criação e ação. Você quer portanto estragar suas melhores forças numa admiração inútil do passado, do qual você sai forçosamente esgotado, diminuído, espezinhado?"
(F.T. Marinetti, Manifesto Futurista)



Chovia pesadamente aquele dia. Era fevereiro, afinal. Chovia pesadamente quase todos os dias daquele mês. Giorgio sempre acreditou que chuvas em dias de funeral queria dizer alguma coisa, embora ele nunca soubesse o que. Preferia pensar que a torrencial chuva ia levar embora aquele sentimento vazio que, ironicamente, o preenchia.

Já era viúvo havia anos - e aquele buraco foi preenchido por um espírito prático e racional. Naquele dia, no entanto, não pôde evitar de lembrar dela. Sofia. O que ela diria se estivesse ali? O que ela teria feito se tivesse presenciado a morte do seu primogênito?

Era estupidez pensar naquilo. Ela estava morta, afinal. Talvez ela tivesse feito isso justamente para não precisar passar por aquele momento. Ele estava sozinho, isso que importava. Seu filho mais velho, Richard, havia morrido por vingança de um grupo rival. Todos os seus homens de confiança também. Pensando agora, eles também tinham família. Filhos e esposas estavam chorando sobre túmulos agora.

Não que aquilo fosse um pensamento reconfortante.

Fez um sinal-da-cruz, pensando que não queria enterrar outro filho. Mattew estava no hospital, estado grave. Coma. Ao menos tinha alguma chance. Ao menos ele não estava enterrando seu irmão, a quem sempre fora tão apegado.

Giorgio amou Sofia, e conscientemente ela o havia deixado. Enforcada. A imagem dos seus lábios arroxeados pela falta de ar surgiu em sua mente. Amou Richard desde quando segurou-o quando ainda era um bebê chorão até quando fecharam o caixão antes de enterrá-lo. Amou Matt, o mais introvertido e talvez o mais sensato dos três. E amava Nicole, a garota sonhadora e a menina dos seus olhos. Teria que trazê-la de volta por mais que não quisesse.

Então seu telefone tocou.

Olhou o número e não conseguiu evitar um meio sorriso. Aquele massacre não ficaria em branco, afinal. Logo prepararia sua vingança. Deu as costas ao túmulo, levantou o capote, deu uns passos na grama molhada e atendeu o celular.

- Créditos do avatar: li-bra's deviantart
- Sim, eu sou péssima com títulos.

sábado, janeiro 27, 2007

Controle de Volume Cerebral




Quanto mais queijo, menos queijo.



Existem várias, várias coisas mesmo que eu gostaria de poder fazer mas ter um controlador geral de volume na minha cabeça seria algo fantástico.

Claro que não seria somente para o mundo externo, eu teria como aumentar o volume da minha biblioteca interna de músicas e conversas também. E dividiria o som externo.

Por exemplo: nesse exato momento, meu irmãozinho chato está ouvindo música a todo volume na sala. Não é que a música esteja ruim, é que ela está alta! E eu simplesmente odeio música alta. Me irrita, dá dor de cabeça, me estressa e impede que eu foque nos meus próprios pensamentos.

Eu poderia, nesse momento, baixar todo o volume que vem da sala, manter o do teclado e ligar minha biblioteca virtual. Já notou que no pensamento as coisas são mais perfeitas que na vida real? Com música não seria diferente: a qualidade seria melhor.

Quando o pestinha viesse reclamar, eu desligaria o som da voz dele na minha cabeça, assim ele poderia xingar o quanto quisesse.

Desligaria o som das buzinas impacientes num pequeno congestionamento de semáforo. Desligaria o som de pedintes, o de carros de som, o de manés com mega-caixas-de-som no porta-malas na praia, o da voz de pessoas chatas...

E claro, ampliaria o som da voz daquela amiga que está me contanto uma fofoca bem baixinho pro resto não ouvir, assim eu a ouviria perfeitamente e os outros, não. Aumentaria também o som dos pássaros, das ondas do mar, das pessoas que estão cochichando para que eu não ouça o que elas tem a dizer.

Eliminaria o som de gente comendo e conversando no cinema e melhoraria a qualidade do som do filme. Aumentaria bastante o som de uma gargalhada (principalmente a da minha professora de francês, a gargalhada dela é fantástica) e de cumprimentos felizes e sinceros e nunca mais ouviria um resmungão mal-humorado.

Seria bom também pra editar os sons, e usar só a parte construtiva das broncas que recebo/recebi. Assim, quando começasse a se repetir, tchau tchau. Desligamento e deletamento automático da parte sobressalente.

Um troço desses seria bem útil e eu seria uma pessoa tremendamente mais feliz, se pudesse fazer uso desse recurso.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Novas Mudanças




Quanto mais queijo, menos queijo.



Provando mais uma vez que somos um site democrático, abri uma nova enquete. A decisão a ser tomada dessa vez é se abrimos ou não novas sessões no blog.

Uma das escritoras daqui é a favor, a outra é contra e uma terceira ainda não se manifestou. Mas já que quem lê são vocês, decidimos (minto, eu decidi) abrir uma enquete.

O lado bom das sessões é que o blog fica mais organizado. Os leitores que não tem interesses por livros ou filmes simplesmente não precisam entrar. Os leitores que tem vão ter a certeza de achar algo por lá com uma certa freqüência, a ser determinada por nós caso a mudança aconteça.

O lado ruim é que é mais trabalho para todas nós, principalmente para mim, que vou ter que montar as páginas. Nada que não possa fazer em uma ou duas tardes, mas ainda assim é trabalho.

Bom, aqui está a enquete, votem, deixem comentários e opiniões (a própria janela da enquete oferece recursos e vocês sempre podem cometar no blog) e decidam o futuro do Membrana.

Ou não. Vai que a gente decide não acatar o resultado da enquete? Hehehe!!!

Ah! Só lembrando: se vocês lerem um texto, acharem interessante e quiserem comentar, fiquem a vontade, ainda que seja o primeiro texto do blog. Todos os comentários são recebidos por e-mail. Assim sendo, nós sempre os vemos. E se alguém quiser falar conosco, basta clicar em "Contato" e nos mandar um e-mail. Será sempre bem vindo!

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O estranho caso do cachorro morto - Resenha




A lua não passa de um grande queijo suíço. E que será comida por ratos alienígenas.




Em um dos meus momentos entre-leituras, li um livro que ganhei no meu aniversário. O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon. Leitura rápida, interessante. Livro com páginas amarelas sempre são mais fáceis de ler. E a diagramação utilizada nele ajudou bastante.

Christopher Boone é um garoto de 13 anos, 5 meses e 2 dias quando a história começa. Quando fazia sua habitual caminhada da madrugada até o final da rua onde morava, encontrou o cachorro de uma vizinha deitado no chão, como se estivesse dormindo. O único diferencial era que um forcado de jardim atravessava o cão.

A história é contada sob a ótica de Christopher, que depois de ter sido acusado de matar o cão e acabar passando a noite na cadeia por ter agredido um policial, resolver investigar o caso. Até aí nada de original, certo? O inusitado é que nosso garoto, agora de 13 anos, 5 meses e 3 dias é um autista. Em sua investigação, no entanto, ele há de descobrir muito sobre sua própria vida e também de passar por muita coisa, como uma viagem a Londres e um passeio no zoológico.

O livro é estruturado em pequenos capítulos, que ao invés de serem numerados em ordem cardinal (1, 2, 3...) são enumerados na ordem dos números primos (2, 3, 7...). Isso porque o personagem tem uma fixação incrível por matemática, ao ponto de querer fazer o exame avançado de Matemática e Física.

Haddon consegue introduzir o leitor na mente de um autista através de uma linguagem simples e disgressões bastante oportunas. O modo como Christpher explica e vê o mundo ao seu redor é realmente curioso, além de engraçado e às vezes comovente. Eu não deixei de sorrir quando, depois de uma discussão com o pai, o homem pergunta:

"- Christopher, você entende que eu amo você?

- Sim, eu entendo.

Porque amar é ajudá-lo quando ele está com problemas, tomar conta dele, falar sempre a verdade, e o Pai toma conta de mim quando eu estou com problemas, como quando ele foi atrás de mim no distrito policial, cozinha pra mim e sempre me diz a verdade, e isso quer dizer que ele me ama."

PS.: Acho que a gente devia fazer algo como uma Cotação Membrana, pros livros que fôssemos falando aqui.