domingo, fevereiro 25, 2007

Canção dos Dragões




A atividade enriquece mais que a prudência.




Atrás de mim, o céu se mostrava escuro, algumas estrelas ainda brilhavam. Já a minha frente, o azul clareava, passando do mais escuro ao início de um tom alaranjado, denunciando o nascer do sol por vir. A marca1 ardia, conforme o tecido roçava na pele queimada. Soltei um pouco mais a camisa surrada, e deixei o vento frio que se despedia da madrugada refrescar meu corpo cansado da estada em Argonessen.

Tanto o que fazer, e tanto o que pensar! A marca, a Profecia2, o que estamos prestes a fazer... tudo poderia acontecer daquele momento em diante. Respirei fundo, como se tentando trazer aquela aparente paz para o meu espírito. Aparente, porque eu sei muito bem do que está para acontecer – do que estamos tentando evitar. Os marcados pelos dragões, como nos chamam o povo de Seren, têm um papel a desempenhar, segundo diz a Profecia, embora ninguém saiba realmente o que ela diz. Imaginei se os próprios dragões sabiam muito mais do que os mortais.

E aquelas montanhas, colocadas ali como uma verdadeira defesa? Seriam elas produtos da natureza? Duvidei que não. Pareciam cair como luvas, afastando possíveis invasores indesejados da Terra dos Dragões. Elas se erguiam muito mais poderosas que qualquer muralha de Khorvaire, e ainda assim muito mais naturais que qualquer obra dos elfos.

Impossível de se confundir com a vastidão a minha frente, vi um ser enorme no pico de uma das montanhas que cercavam a ilha. Austero, ergueu o longo pescoço escamado, profundamente azul, e pareceu olhar ao redor. Tenho certeza que notou o navio - poderia até dizer que ele notou o meu olhar em sua direção, mas não tenho certeza. E com uma graciosidade que eu imaginava ser impossível para uma criatura daquele tamanho, ele alçou vôo, se perdendo no azul do céu.

E quase como se para continuar o espetáculo diante de mim, percebi outro dragão ganhar vôo. Se é que eu posso chamar aquele ondular ao vento de vôo. Seu corpo era longo, vagamente serpentino, e das suas costas as vértebras pareciam alongar-se. Entre os ossos sobressalentes, escamas de puro ouro líquido ondulavam no céu, com uma naturalidade e uma beleza nunca antes vistas. Não, ele não voava. Ele nadava em um céu que ganhava tons de dourado. Seria o sol, ou as escamas do dragão?

Em seu encontro veio outro ser tão ou mais majestoso. Sua pele também parecia banhada, mas dessa vez em pura prata. As formas eram perfeitas, graciosas, e por fim os dois se encontraram. Mas não pareciam sequer se tocar – rodopiavam entre si, ora descendo, ora subindo. E então, só então, pude ouvir: vozes estridentes, mas nem por isso menos belas. Eles estavam cantando. Eu estava ouvindo a Canção dos Dragões.

Logo outras vozes se juntaram ao coro, formando um conjunto de fazer inveja a mais afinada orquestra de Khorvaire3. Estou certa que nunca mais vou ouvir algo tão bonito assim. Tão bonito e tão triste. Eu não podia entender as palavras, mas aquilo já não mais importava. Eu podia sentir a força da canção reverberando nos meus ouvidos, chegando a minha alma. Cantavam por um dragão caído, lamentando seu fim. Tamanha era a tristeza daquela canção, tamanha era sua força, que senti meus olhos marejarem.

Em uma harmonia até então impensável para mim, o coro crescia, e aumentava, e ganhava poder. Junto com as notas inumanas, sentia a canção ganhando força, como se pelo poder do lamento daquelas poderosas criaturas, o companheiro caído pudesse ser trazido de volta. E por que não? Eles eram dragões! O mundo como conhecemos foi criado pelo poder da canção de apenas um deles, segundo contavam as lendas.

Lendas?

Por fim, a canção acabou. E eu já não podia mais vê-los. Olhei ao meu redor, e todos pareciam ocupados demais para terem percebido o que aconteceu. Como eles puderam não ver? Como eles puderam não ouvir? Todos ali, tão perto, e ainda assim tão absortos em suas preocupações mundanas que perderam uma oportunidade única em suas vidas. Será que aquilo não passou de um sonho meu? Algum tipo de delírio causado pela atmosfera milenar da misteriosa ilha de Argonessen4?

Bardos manipulam a canção, ou as palavras, para influenciarem uma pessoa sob sua vontade. Mas as lendas, as lendas contadas por esses mesmos bardos, falam do poder dos dragões. Falam que, com a força de uma canção, eles criaram o mundo. Os Dragões Ancestrais fizeram isso. E por que seus descendentes não poderiam manipular a terra, o ar? Por que não poderiam eles criar uma muralha natural de montanhas para protegerem seu lar? Por que não poderiam eles, pelo poder de sua canção, mudar o mundo?

E conforme o navio Dragonsong se afastava, Argonessen passava a ser apenas Argonessen: uma ilha cheia de mistérios e perigos, lar dos poderosos dragões.

Do diário de Tessa Besson, texto não datado.

Notas do Editor:
1.
A marca à qual se refere Tessa se trata de uma dragonmark, ou marca do dragão, como chamam alguns estudiosos. A maioria das marcas aparecem seguindo determinados padrões, e as pessoas marcadas se aglomeraram e formaram poderosas casas nobres, como a casa Lyrandar, com a marca da Tempestade, por exemplo. Tais marcas, que parecem com tatuagens, concedem determinados poderes ao seu portador. A marca que Tessa apresenta, contudo, é uma das chamadas Aberrant Dragonmarks. Suas formas não seguem nenhum padrão, muito menos os poderes concedidos aos portadores. Estudos revelam que indivíduos que nascem com tais marcas são concebidos da união de membros marcados de casas diferentes.

2. A Profecia mencionada por Tessa faz parte da crença dos Dragões, e do povo que os seguem, habitantes da ilha de Seren. Seren é uma pequena ilha situada a norte de Argonessen, em mares bem ao sul do continente. Nem mesmo os povos bárbaros de Seren sabem do que se trata A Profecia em si, portanto, não há muita informação a respeito. Mas aparentemente, segundo as lendas, cada ser tem um papel a cumprir, de acordo com a Profecia.

3. Khorvaire é o nome das terras do continente, no qual estão situadas as Cinco Nações.

4. Argonessen é a ilha onde habitam os dragões, idolatrados como totens pelos bárbaros de Seren. Não há muita informação a respeito, visto que poucas expedições voltaram de lá.

6 comentários:

Allana disse...

Esse é um trecho de diário da minha personagem na campanha de Eberron, guiada por Nino, que nunca comenta aqui. Quis fazer o texto em forma de diário, que foi posteriormente publicado em algum jornal e com notas explicativas para possíveis leitores leigos. Espero que tenha conseguido.

Tessa é uma exploradora ao estilo Indiana Jones - estudiosa que busca o conhecimento de uma forma bem prática. Bonita e nem um pouco prudente, Tessa é bem mais de agir do que pensar. Isso, contudo, não quer dizer que ela é uma estúpida.

Como referência visual para a personagem eu me utilizei de Salma Hayek, no filme Bandidas (e por isso o avatar mais que temporário, só para esse post).

É isso. ^^ Boa semana a todos!

Anônimo disse...

as forças da palavas descritas nesse texto me ajudaram a relaxar em uma manha tão absurdamente chata que é a da hj(segunda). good job, keep going. xD

Anônimo disse...

Não sei por que, mas esse texto me deixou triste.

Allana disse...

Nossa. :P

Italo disse...

Épico...

- Braaavo!

Nino X. disse...

Excelente. Eu devia te pagar pra passar na prosa todas minhas mestragens. xD